''Dizem que sou louco por pensar assim.'' A frase dá início à canção ''Balada do Louco'', um clássico dos Mutantes, mas também serve para definir um personagem de Ribeirão do Pinhal (Norte Pioneiro), conforme ele mesmo se define. Trata-se de Paulo Sérgio da Cunha, o Paulo Gaivota Um - o ''Um'' é porque ele já encontrou um homônimo na internet.
Apaixonado por artes desde a infância, ele tem investido em criações de arte digital, mas sem abandonar os instrumentos musicais, seja de cordas ou de sopro, artesanal ou industrializado. O negócio de Gaivota Um é fazer som.
Cunha se classifica como ''doente por arte'' e, em uma das vezes que sua patologia se manifestou, apareceu tocando um baixo-tuba no cemitério municipal da cidade de pouco mais de 13 mil habitantes.
''Estava procurando lugares sem barulho e o cemitério, além de silencioso, é bem arborizado, o que é bom pois o instrumento não é muito leve'', conta.
A tuba que carrega para cima e para baixo, presa ao teto de seu Fusca, não é qualquer instrumento. Segundo Gaivota Um, esse foi o primeiro instrumento do gênero a existir no município e para entender esta relação é preciso voltar ao passado.
Nascido em 1955, em Ribeirão do Pinhal, Cunha era criança quando viu a banda municipal passar tocando uma canção de Chico Buarque e o som diferente de um instrumento lhe chamou a atenção. ''Conseguia perceber o barulho de cada instrumento pelo ouvido, mas quando a tuba começava, eu estremecia e tudo aquilo me intrigou'', revela.
Aos oito anos de idade, Paulo foi levado pelos pais para um colégio interno em Joaquim Távora, também no Norte Pioneiro. Foi lá que aprendeu a tocar acordeon, a fazer artesanato e uma certa técnica de teatro.
Nos tempos de faculdade, afastou-se da arte o que, de acordo com ele, prejudicou seu rendimento. ''Dependia da música para me concentrar nos estudos, quando perdi isso parece que tudo acabou'', relembra. A partir daí diz ter rodado o Brasil, até sossegar novamente, sem nunca esquecer o baixo-tuba.
Há dois anos atrás, no entanto, encontrou partes do instrumento guardados no depósito da prefeitura e, com a devida autorização, remontou-o e começou a treinar, sozinho, como já havia feito com outros instrumentos. ''Não concluí a faculdade. Tudo o que faço, dependo da minha criatividade'', explica.
Uma breve olhada nos cômodos de sua casa, cheios de guitarras, contrabaixos, bateria, entre outras coisas, e ele constata. ''Já investi o valor de um carro bom nisso, mas não me arrependo'', afirma.
E assim, vivendo de arte em algum lugar do Paraná, Paulo Gaivota Um coleciona alguns admiradores, outros nem tanto. Coleciona também momentos inusitados nos seus mais de 30 anos dedicados à arte, como a vez que tocava a tuba no cemitério e foi interrompido por um cortejo. ''Estava tocando, de repente começou a entrar um povo chorando, acompanhado de um caixão, peguei a tuba e saí de fininho.''

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