No dia 10 de outubro de 1994, a dona de casa Ilse Maria Picagna, de Corbélia (24 quilômetros de Cascavel), escutou o filho dizer que iria jogar bola em um ginásio da cidade. Era final de tarde de uma segunda-feira. Ele gostava de futebol e nunca recusava um convite como aquele. Fã de diferentes modalidades de esporte, o jovem Everton, de 13 anos, possuía diversas medalhas de provas de natação que participara no município.
Mais tarde, Ilse percebeu que o filho ainda não havia chegado, mas resolveu esperar mais um pouco. Acabou dormindo e, quando acordou de madrugada, foi até o quarto do jovem. Não havia ninguém. Chamou o marido e começaram a procura. Percorreram hospitais e casas de amigos. Em seguida, foram notificar o desaparecimento na delegacia da cidade.
No outro dia, a bicicleta de Everton foi encontrada em uma estrada na saída da cidade. Essa foi a última pista do desaparecimento do jovem. Há 14 anos, a família não tem nenhuma notícia que possa levar ao suspeito do crime ou ao paradeiro do filho. As poucas pistas surgidas eram todas falsas.
O desaparecimento de crianças não é um problema apenas de grandes metrópoles. Conhecida como "cidade das flores", Corbélia possui apenas 15 mil habitantes. Em 1994, esse número era ainda menor. Mesmo assim Everton sumiu. Hoje a família enfrenta dificuldades. Ilse tem 59 anos e pesa 47 quilos. Em todos esses anos, teve depressão por diversas ocasiões. No ano passado, ficou sem andar devido à fibromialgia (doença que causa falta de flexibilidade, ciclos menstruais doloridos, problemas de raciocínio e memória, formigamento nos pés e nas mãos e insônia). O marido virou alcoólatra.

Medo transferido

O casal tem mais dois filhos, hoje com 39 e 37 anos. Eles são casados e cada um possui um filho de 5 anos. As crianças são proibidas de chegar perto do muro da casa. Quando estão brincando no jardim e alguém se aproxima do portão, já correm para dentro. Elas sabem que ‘o velho do saco levou o tio Everton’.
"Cada dia a dor é maior. Hoje é ainda pior que o dia do desaparecimento. São muitos anos sofrendo, muita saudade e angústia e pouca esperança de encontrar. Mas ainda tenho esperança de achá-lo, vivo ou morto", conta a mãe. Hoje Everton teria 29 anos. Uma foto do jovem na estante da sala mantém viva a memória da família daquele rapazinho corinthiano que saiu de casa para jogar futebol e, como uma bola roubada, nunca mais apareceu.

Paradeiro

Ilse acredita que Everton foi levado embora de Corbélia. Ela até suspeita de uma pessoa que vive na cidade e que já teve passagem pela polícia. Mas depois dele prestar depoimento na delegacia, nada foi provado. "A lei não trabalhou como deveria. A promotora da cidade disse que não foi trabalhado da maneira certa e agora acha difícil encontrar alguma coisa", comenta a mãe.
Amigos de Everton relataram que o suspeito seguiu o jovem durante três semanas no trajeto da escola para casa. "Ele deu depoimento, mas nada aconteceu. O delegado tratou a gente muito mal. Eu ainda estou em cima do caso. Não consigo esquecer. Preciso saber o que aconteceu com meu filho. A gente precisava de uma pessoa que investigasse de verdade. Aquele cara (o suspeito da mãe) fala no depoimento que fazia quatro meses que não via o Everton, mas os amigos do meu filho viram que eles haviam conversado no mesmo dia do desaparecimento", desabafa a mãe.
"Com o sumiço do Everton caímos no fundo do poço. A vida tá difícil. Meu marido já fez ponte de safena e semana passada fez cirurgia no olho. Estou muito triste. A gente não tem justiça. O Everton não está aqui para dizer o que aconteceu. Jamais vou parar de lutar pelo meu filho."
Como Everton sumiu quando tinha 13 anos, o caso não pôde ser atendido pelo Sicride (Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas). Nesse órgão, são investigadas apenas as crianças que tinham até 11 anos quando sumiram. A FOLHA entrou em contado com a Delegacia de Corbélia, mas um escrivão disse que ninguém poderia fornecer informações pois não sabiam nada sobre o caso, já que não trabalhavam no local na época do desaparecimento. A promotora do Fórum da cidade não quis atender à reportagem e disse, por meio da secretária, que está no cargo há pouco tempo e que somente a mãe de Everton poderia dar mais informações. Assim, o caso fica perdido em meio a outras investigações que a delegacia e o fórum tentam resolver.
Amanhã, você lê na FOLHA reportagem sobre o trabalho do Sicride e dados sobre o número de crianças desaparecidas no Paraná.

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