Elite impede a paz social, diz Clai
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quarta-feira, 29 de abril de 1998
Célia Baroni 
Enquanto não houver paz social, a ausência de guerras e guerrilhas continuará sendo apenas um acordo frágil entre elites. A afirmação é do secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai), reverendo Felipe Adolf. A trégua nos confrontos bélicos em países da América Latina e Caribe é um passo significativo. Mas é também evidente que a miséria continua se alastrando, porque as políticas econômicas mantêm a concentração de renda nas mãos de uma elite, impedindo a paz social.
Adolf esteve esta semana em Londrina conhecendo a nova sede do Clai no Brasil, instalada na Cidade há um ano. Mesmo nos países onde não há guerra, analisa ele, a desigualdade de distribuição de renda espalha a miséria. Dados oficiais do Banco Mundial, por exemplo, apontam o Brasil como o país mais injusto do mundo. Aqui, os 20% mais ricos da população têm uma renda 26 vezes maior que os 20% mais pobres.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil ocupa o 68º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano. Adolf anunciou que, a partir de julho, o Conselho Latino-Americano de Igrejas, em conjunto com a ONU, vai implantar uma série de programas de educação para a paz, com enfoque especial no meio ambiente e na saúde. Entendemos que a qualidade de vida é a base para alcançarmos a paz social, com o acesso à saúde, educação, moradia, cidadania.
Criado oficialmente em 1982 para promover a união e ações conjuntas entre todas as igrejas, o Clai reúne 160 igrejas pentecostais e organizações ecumênicas de 21 países da América Latina. A regional do Brasil conta com a participação de oito igrejas e 11 organizações ecumênicas, inclusive da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Ao contrário da posição do papa João Paulo II, que orienta os representantes da Igreja Católica a não se envolver em política, o Clai acha importante as igrejas assumirem seu papel de denúncia das injustiças sociais e desrespeito aos direitos humanos. A igreja não pode se omitir porque seu trabalho principal é servir.
Felipe Adolf afirma que as próximas eleições para presidente da República, governadores e parlamentares vão definir os rumos do Brasil. Na Carta de São Leopoldo, elaborada pela Junta Diretiva e Secretariado Continental do Clai, divulgada em 25 de abril, o Conselho afirma que as eleições vão decidir se o País continuará subordinado a um modelo econômico neoliberal globalizado ou se vai preservar sua soberania como nação.
Na Carta de Curitiba, documento elaborado durante encontro nacional entre entidades de defesa dos direitos humanos, promovido em março pelo Clai, foram definidas propostas de ações para o Brasil. No documento, o Clai orienta todas as igrejas a apoiar concretamente a Campanha Nacional contra a Impunidade, que será veiculada pelo Movimento Nacional dos Direitos Humanos. O Conselho entende que o ciclo da impunidade é uma das causas de perpetuação da violência e da violação dos direitos humanos no Brasil.
O movimento, afirma Adolf, deve incluir campanhas contra a imunidade parlamentar - para ele, um instrumento que facilita a corrupção. O Clai orienta as igrejas a atuar em defesa do respeito aos direitos humanos no sistema prisional e contra qualquer expressão de abuso de autoridade. O conselho defende ainda que se desenvolvam programas de humanização e formação da polícia.
O Conselho apóia ações contra a redução da idade penal de 18 para 16 anos. Adolf argumenta que a alteração é paliativa e agravaria a criminalidade, porque o sistema penintenciário não cumpre o seu papel de reintegração do indivíduo ao meio social. Na Carta de Curitiba, o Clai dá respaldo para que as igrejas desenvolvam e apóiem a reforma agrária e o combate ao racismo. Assinaram o documento 27 representantes de igrejas e organizações ecumênicas de todo o País.
Felipe Adolf deixa o cargo em janeiro de 1999, depois de 14 anos como secretário geral do Clai. Em seu lugar vai assumir o pastor Israel Batista, da Igreja Metodista cubana, eleito na última reunião do Clai, realizada em abril na cidade de São Leopoldo (RS).


