Eles escutam, mas não de propósito. Enquanto trabalham, uma orelha está ligada no serviço e a outra, inevitavelmente, acaba ficando atenta na conversa dos outros. Por isso, cuidado, porque não só as paredes têm ouvidos, mas também os táxis, elevadores, cafés e restaurantes. Quem trabalha nesses locais acaba presenciando a conversa de seus clientes e usuários.
‘‘Mesmo que a gente não queira, acaba ouvindo tudo’’, diz Cícero Vicente de Mello, taxista há cinco anos. Ele conta que já escutou de tudo, desde confidências de trabalho, brigas conjugais e flertes extraconjugais. ‘‘Tem assuntos que fazem com que a gente fique curioso e às vezes não dá tempo para terminar de escutar’’, confessa Mello.
O taxista diz que um advogado, passageiro assíduo, descrevia em seu celular o caso de infidelidade para outra pessoa. Quando chegou no lugar de desembarque, o advogado desceu sem completar a história. ‘‘No dia seguinte, ele entrou falando no celular, mas o carro começou a andar e ele preferiu ficar em silêncio durante todo o trajeto’’, comenta. ‘‘Como não dá para perguntar, porque o passgeiro pode reclamar, o jeito é esperar que uma nova história apareça’’.
Situação semelhante vivenciou a atendente Silvana Aparecida, do Café Senadinho, na Rua XV de Novembro. Enquanto servia o café, mantinha-se antenada no diálogo de dois amantes em início de relacionamento. ‘‘Ele tentava conquistá-la, mas enquanto estava no café não atingiu o objetivo’’, conta. No dia seguinte, Silvana soube o resultado do flerte, assim que os os dois voltaram para tomar café, como se fossem dois pombinhos.
Menos romântico, talvez pelo próprio ambiente, o ascensorista da Associação Comercial do Paraná, Antônio Siqueira Silva Filho, conta que soube de segredos de empresas e fechamento de negócios, antes mesmo que os jornais noticiassem. ‘‘Os empresários entram empolgados em sua conversa e falam sem restrição’’, diz. Cauteloso, Antônio prefere não informar o teor das conversas. ‘‘Tenho que ser discreto, porque os assuntos são sérios’’, afirma.
Falsa indiferença - Apesar dessa precaução, Antônio tem sua metodologia para ouvir conversas alheias. Fingindo estar ocupado, ele vai apertando os botões e lentamente vai sabendo do dia-a-dia dos usuários. ‘‘No sobe e desce, acabo sabendo o que acontece na casa’’, diz, informando, em seguida a uma funcionária onde estaria determinado diretor.
O taxista Adriano Porfírio também se finge de morto para se concentrar nas conversas. ‘‘Fico olhando para a frente e trocando as marchas, acompanhando com os olhos no retrovisor o desenrolar das histórias’’, comenta, o motorista que tem quatro anos de praça.

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