O companheiro de Vanessa (nome fictício), 25, está internado numa clínica de reabilitação para se tratar do alcoolismo e uso de drogas. Ele vê os filhos raramente, não paga pensão, mas o tratamento é cordial: o filho mais novo adora sair com o pai. Já as ameaças à antiga esposa são constantes, principalmente agora que ela voltou a namorar.
Vanessa ficou casada por sete anos. Já no primeiro esboço de violência, no último ano da união, decidiu sair de casa. Mas em menos de um mês ela voltou para o marido, sem dar queixa à polícia. ''Seis meses depois ele me agrediu pela segunda vez, então saí para nunca mais voltar.'' Separada há três anos, Vanessa já foi ameaçada de morte quatro vezes pelo ex-marido.
Hoje, ela vive com os filhos na casa dos pais e é a avó quem cuida da educação das crianças. A mudança de comportamento nos jovens foi inevitável. ''Eles estão mais agressivos. Fazem o que querem, na hora que querem.'' A mãe confessa que a filha passa mal quando vê o pai. ''Ela não sente vontade de vê-lo. Já o menino, é mais falador. Mas eles nunca foram de demonstrar carinho.''
Segundo pesquisa da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani), em média 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia no Brasil. De hora em hora, de acordo com o Unicef, morre uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais. Para a psicóloga paulista Rosemary Naomi Setokushi Ferreira, ''o que todos os agressores têm em comum é a falta de carinho e cuidado na infância''.
Conforme Rosemary, vários são os fatores que contribuem: físicos, psicológicos, negligência, abuso. ''Faltando referência, surgem problemas emocionais e a desestruturação interna, que faz com que o indivíduo tenha pouco controle e ciência sobre o que sente. Uma das formas de expressão dessa desestruturação interna é a agressividade'', explicou.
''É preciso que a sociedade denuncie os casos em que tenham ciência que a criança corre risco. O diagnóstico precoce em crianças e adolescentes é muito importante para que não se reproduza a violência no futuro'', completou. (Mariana Guerin e Thiago Nassif)

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