Passar pelo Centro de Londrina é um teste de paciência. Quem está a pé tem que conviver com constantes abordagens no Calçadão para responder pesquisas ou fazer cadastros. Se estiver de carro, são inevitáveis os engarrafamentos, fechadas e buzinadas. Se passar pelo Centro parece um tormento, imagine morar por ali. No entanto, a FOLHA constatou que os moradores da Região Central adoram o lugar e, apesar de alguns problemas, não trocariam de endereço por nada.
Um bom exemplo é o aposentado Clério Pellegrini, de 79 anos. Filho de tropeiro, ele chegou a Londrina em 1940 e, desde então, não sabe o que é morar em outro lugar na cidade a não ser o Centro. O primeiro endereço foi um dormitório na Avenida Duque de Caxias, dividido pelos sete integrantes da família. Há 30 anos, ele mora em uma casa na Rua Pará. A simplicidade da casa contrasta com a modernidade dos prédios vizinhos. ''Meus filhos moram totalmente afastados, é tudo longe. O Centro é um lugar privilegiado, fica perto de tudo.''
Entre as principais atividades do aposentado estão as caminhadas no Zerinho do Bosque, nem tão frequentes como antigamente devido à má conservação do local. ''Parece que o povo detesta a coisa pública. Constrói hoje, amanhã já está tudo bagunçado'', esbraveja Clério, que também se incomoda com as pombas. ''Mandei podar as árvores do quintal para ver se ficava mais limpo'', conta, apontando a pitangueira plantada por sua mãe há 40 anos, que chegou a ter 15 metros de altura.
Por falar em quintal, o da casa do aposentado Guilherme Lulsdorf salta aos olhos, com um gramado difícil de se ver. Ele mora na mesma casa, na Rua Espírito Santo, desde 1939. Mesmo reclamando da violência, que o obrigou a colocar cerca elétrica e aumentar as grades, o aposentado de 77 anos se sente feliz morando no Centro. ''Essa questão de violência, barulho, faz parte da rotina da cidade. Tem que se acostumar'', pondera.
O barulho não incomoda Alfredo Hildebrand, morador de um dos prédios do Calçadão da Avenida Paraná há oito anos. Perguntado sobre as vantagens e desvantagens de morar sobre o ponto de maior concentração de pedestres da cidade, Alfredo é taxativo: ''não vejo desvantagem nenhuma. O melhor de tudo é não precisar se deslocar muito para buscar as coisas. O Calçadão é a nossa área de lazer. Sempre venho assistir as apresentações culturais que tem aqui.''
A aposentada Rosa Andrade, 63 anos, morou dez anos em uma chácara antes de se mudar para o prédio do Calçadão, e não se arrepende da troca. ''Todo mundo falou que eu não ia me acostumar com o barulho. Lá se vão dois anos e meio e eu estou adorando, porque gosto do movimento. Se quiser sossego, vou no cemitério'', brinca a aposentada.
Outro a elogiar o Centro da cidade é Gilmar Casione, morador do Edifício Bosque, na Rua Piauí. Segundo ele, a Região Central, além de ter tudo mais próximo, reúne prédios antigos, que são maiores e mais confortáveis, com espaço até para criar um cachorro. ''O problema é a falta de garagens, que não foram planejadas durante a construção dos prédios.''
Espaço não é problema para o estudante Artur Cardoso, morador do Centro Comercial. Com o skate debaixo do braço, ele conta que vai à Concha Acústica todos os dias para andar de skate ou jogar futebol. ''Não prejudica em nada a falta de um espaço para brincar no prédio'', garante o garoto de 11 anos, que não deixa de registrar uma reclamação sobre o local: ''O barulho incomoda no final da tarde, quando soltam rojões para espantar as pombas''. Pelo visto, elas foram eleitas as inimigas número um de quem mora no Centro. ''Parece que a gente mora perto daqueles galinheiros de sítio'', finaliza Gilmar Casione.

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