A artilharia dos nazistas alemães estava aberta. Os tiros eram muitos. No chão, a neve que se derretia transformava a marcha dos soldados brasileiros em uma difícil e escorregadia missão. O frio era de 18ºC negativos, beirava o insuportável. Já era a quarta vez que os soldados tupiniquins tentavam tirar o Monte Castelo, uma elevação montonhosa tímida do Norte da Itália, mas de caráter estratégico fundamental, das mãos dos inimigos. Nas três oportunidades anteriores fora preciso recuar. Daquela vez, exatamente no dia 21 de fevereiro de 1945, tinha que ser diferente. E foi. Os alemães ergueram a bandeira branca, em sinal de rendição, e os brasileiros, difinitivamente, tomaram o cume do Monte Castelo. Estava realizada a maior vitória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Na linha de frente do combate, de fuzil nas mãos, o soldado José Soares Neto, não pensava em outra coisa que não fosse conquistar de vez o monte. Já havia oito meses que ele estava lutando na Itália. Cruzara o país de Norte a Sul, a pé, combatendo, conquistando vilas, vendo amigos tombarem mortos e rezando para que a sua vez morrer ou ser ferido nunca chegasse.
Escapou da morte, mas não dos estilhaços de um morteiro que feriram sua face do lado esquerdo. Vinte dias hospitalizado e um pedido para voltar ao combate no momento da alta. ''Geralmente quem se feria, depois de curado, ia para a retaguarda, para o rancho. Mas eu queria combater. Meus amigos estavam lá, na linha de frente'', ele recorda.
Mesmo 65 anos depois da tomada de Monte Castelo, as lembranças dos pracinhas brasileiros continuam vivas e os emocionando, embora o ato bélico que orgulha os militares não seja muito lembrado pelos brasileiros. Para o senhor José Soares Neto, o esquecimento, por parte da maioria dos brasileiros, dos pracinhas que deram a vida para defender o nome do Brasil na Segunda Guerra causa cicatrizes mais profundas do que aquelas causadas pelos estilhaços de morteiro que o atingiram. Porém, não o desanimam.
''Hoje, para o nosso povo, herói é aquele que marca um gol em uma partida de futebol. A palavra heróis está banalizada, é usada para qualquer um. Heróis de verdade são aqueles que foram enterrados em Pistóia'', comenta, referindo-se à cidade italiana que recebeu os restos mortais de brasileiros mortos em combate.
No entanto, engana-se quem pensa que o ex-combatente, hoje com 88 anos de idade e morador de Londrina é um sujeito amargurado. Trata-se de um senhor simpático, de alto astral, e ainda um bom goleiro de futebol, praticante do esporte pelo menos três vezes por semana. No campo, ao contrário da guerra, ele não atira, só defende. Muitas vezes os tiros são disparados por pés de atletas até 50 anos mais jovens que ele.
Homem que sustentou a família à base da grana conquistada na boleia do caminhão, ele conta que outra coisa que o deixa feliz da vida é lidar com os símbolos pátrios. Ficou feliz por ser o encarregado de hastear a bandeira na cerimônia organizada pelo 30º Batalhão de Infantaria Motorizado de Apucarana para comemorar os 65 anos da tomada de Monte Castelo. Com grande carinho, guarda a mala que levou para a guerra, a farda completa, a bolsa das granadas e o gorro, ainda com o sangue, de quando foi ferido. ''A guerra é uma estupidez. Fico feliz por ter sobrevivido a ela'', finaliza.

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