De segunda a sexta, Laertes Gomes da Silva, 31 anos, acorda às 6 horas, toma o café da manhã e está pontualmente às 7h30 no canteiro de obras da construtora Coenge, no bairro Uberaba, em Curitiba, onde trabalha como pedreiro. Depois de oito horas de trabalho, toma o ônibus e vai descansar para enfrentar uma nova jornada no dia seguinte. Ele seria um operário comum, não fosse sua condição de detento. Em vez de ir para a casa, Laertes segue em direção ao presídio, em Piraquara.
Ele é um dos 350 detentos da Colônia Penal Agrícola, com 900 presos, que participam do programa do Departamento Penitenciário do Paraná (Depen) de levar para fora da Colônia os presos interessados em trabalhar fora. O Depen mantém convênio com cerca de 50 empresas privadas e órgãos públicos, como Detran, Emater, Embrapa e a Universidade Federal do Paraná.
Essa é uma das fórmulas mais eficientes que o Depen vem adotando há cinco anos para recuperação dos detentos em regime semi-aberto, diz o coordenador Sezinando Paredes. No Paraná, o trabalho externo é adotado ainda pela Penitenciária Feminina de Curitiba. Ali, cerca de 20 presidiárias atuam em serviços de limpeza. ‘‘O resultado do trabalho externo é excelente porque eles têm contato com outros trabalhadores, vão se adaptando ao meio social e se tornam responsáveis pela manutenção da família ainda na prisão’’, afirma.
O pedreiro Laertes confirma. Como prevê o programa, ele recebe um salário mínimo por mês, dos quais 25% vão para o Fundo Penintenciário. Solteiro, gasta os R$ 90,00 mensais com compras pessoais e ainda ajuda os pais, que moram em Santo André (SP). ‘‘O trabalho me recuperou, me deu amigos e dignidade. É trabalhando que vou enfrentar o mundo quando sair da prisão’’, diz Laertes, condenado por homicídio e furto e que em três meses deve ganhar a liberdade depois de 11 anos encarcerado.
O coordenador do Depen afirma que devido ao sucesso do programa, a meta é permitir que mais presos possam ter seu emprego. O diretor da Colônia Penal Agrícola, Antonio César dos Santos Franco, diz que para manter em funcionamento a unidade seriam necessários apenas 20% do total de detentos. Ou seja, outros 80% poderiam trabalhar fora. Isso só não ocorre devido ainda ao preconceito da sociedade e de algumas empresas contra os presidiários, diz Paredes. ‘‘Mas isso tende a diminuir’’, acredita. Segundo ele, quando o convênio começou, em 1989, o programa atendia apenas 20% dos detentos.
O trabalho externo, diz o coordenador, é uma espécie de ‘‘premiação’’ dada aos internos com bom comportamento. Uma comissão técnica e uma terapeuta ocupacional avaliam as condições e as aptidões dos presos para determinado tipo de trabalho. Como ocorre com os presos que atuam na parte interna, a cada três dias trabalhados eles têm a pena reduzida em um dia. Os que atuam internamente, porém, recebem apenas um pecúlio de R$ 21,00 mensais.
Os presos atuam como mãodeobra especialmente na área de construção civil, em trabalhos de manutenção, na agricultura, na pecuária, em jardinagem, em madeireiras, entre outras funções. Pelo convênio, as empresas oferecem o transporte e a alimentação dos detentos. Eles são transportados por ônibus e um agente de segurança, desarmado, acompanha no local de trabalho cada grupo de em média 20 detentos. ‘‘Nunca houve tentativa de fuga, eles são presos pela consciência’’, diz Paredes.

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