Eleições ampliam trabalho temporário
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quinta-feira, 06 de agosto de 1998
Anna Camanducaia 
Cartazes, faixas e santinhos já estão espalhados por toda a cidade de Curitiba, ampliando o mercado de trabalho temporário durante a campanha eleitoral. Não existem estimativas exatas de quantos cabos eleitorais são empregados neste período, por causa da informalidade. Mas é só observar em cada esquina para concluir que são dezenas de desempregados que precisam pagar as contas e jovens que procuram dinheiro extra. O trabalho gerado nesta época, mesmo que temporário, é uma oportunidade de engordar o orçamento.
A ex-secretária Rosa Oliveira, 47 anos, estava desempregada há um ano. Ontem, começou a trabalhar segurando faixa de candidatos na rua Inácio Lustosa, esquina com Cândido de Abreu. Rosa terá que trabalhar todos os dias, das 11h30 às 18h, para ganhar R$ 180,00 no final do mês. Dá para pagar luz e condomínio, mas ainda tenho que contar com a ajuda das pessoas.
Mauro FrassonEsforçoA estudante Elaine Kintopp, há uma semana fazendo panfletagem: de segunda a sexta, das 11h às 17h, e aos sábados, das 9h às 13h, para ganhar R$ 240 por mêsRosa diz que já foi atrás de empregos anunciados nos jornais, deixou currículo em agências de emprego e conversou com amigos, mas não conseguiu qualquer resposta. Quando o emprego temporário terminar, pretende continuar procurando uma vaga. Rosa tem que trabalhar para sustentar a casa e a filha de 22 anos, que estuda o dia inteiro e não tem tempo para trabalhar.
A adolescente Franciele Rodrigues Preto, 14 anos, trabalha no mesmo local. Franciele nunca tinha trabalhado e resolveu aceitar o emprego para ajudar a pagar sua festa de noivado em outubro. Depois disso, quer trabalhar como babá. Experiência ela já tem. Até esta semana, cuidava dos dois irmãos, Camila, 8 anos, e Valbert, 5.
Atrás de um reforço no orçamento, há quem largue tudo o que fazia antes. O artista plástico Paulo André de Paula, 27 anos, trocou a pintura diária na Boca Maldita pela distribuição de santinhos em lojas, e ainda segura cartaz de candidato na esquina das ruas Desembargador Westphalen e André de Barros.
De Paula faz retratos, mas disse que na época do frio as encomendas diminuem. No inverno, ganho R$ 250,00 por mês. Como artista plástico, De Paula trabalha todos os dias, das 12h às 19h. Agora nas eleições, vai trabalhar de segunda a sexta, das 9h às 17h, com uma hora de almoço. O pagamento é de R$ 20,00 por dia. No final do mês, o dobro do que ganhava como artista.
De Paula não abandonou completamente a profissão. Quando não está cansado, volta para casa no final do dia, pega seus retratos e vai expor na Boca Maldita, das 19h às 21h30. O artista plástico disse que o trabalho cansa, mas ele consegue se distrair vendo os carros e as pessoas passando. Também tem muita gente que vem conversar comigo, disse. Algumas pessoas vêm procurar emprego. Só na terça-feira, 20 pessoas me perguntaram se não tinha uma vaga para elas. Esta é a segunda vez que De Paula trabalha nas eleições.
Panfletagem - Fora da campanha eleitoral, a distribuição de panfletos volta a ser uma prática de construtoras, restaurantes e lojas em geral. Em qualquer sinaleiro, existe uma pessoa distribuindo algum tipo de propaganda - para o alívio de famílias que precisam do dinheiro e para o terror de muitos motoristas.
A estudante Elaine Cristina Kintopp, 19 anos, está há uma semana fazendo panfletagem de um restaurante. Trabalha de segunda a sexta, das 11h às 17h, e aos sábados, das 9h às 13h. Elaine ganha R$ 10,00 por dia, além de almoço e vale transporte. Com esse dinheiro, vou ajudar a minha mãe a pagar as contas da casa e aproveitar para comprar algumas coisas para mim.
Elaine disse que procurou emprego durante cerca de um ano. Está difícil arranjar um emprego fixo. Todo mundo exige segundo grau completo ou curso superior, além de conhecimento em computação. Ela está terminando o segundo grau este ano e ainda quer conseguir um emprego fixo.Mauro FrassonÉpoca de campanhaA dois meses das eleições, centenas de pessoas encontram uma vaga temporária para fazer propaganda de candidatosDe olho no reforço no orçamento, desempregados e jovens aceitam passar o dia distribuindo santinhos e segurando cartazes
Dá para pagar luz
e condomínio, mas
ainda tenho que
contar com as pessoas


