Ele me destrata o tempo todo. Às vezes acho que não vou aguentar
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 1997
Londrina 
Ela é casada há 34 anos. Quando está em casa tem medo de fazer coisas que desagradam o marido. Nunca sei quando ele vai me agredir ou o motivo que vai fazê-lo ficar bravo, afirma Madalena, 56 anos (nome fictício). O marido tem 58 anos, e não gosta que ela saia de casa porque, segundo ele, mulher na rua só pode estar biscateando.
Toda vez que ela vai para a igreja, única atividade que mantém fora de casa, a volta vira um suplício. Ela treme e sua frio só de pensar nas humilhações que vai ter de suportar. Madalena é uma das mulheres vítimas de violência que procuram orientação e ajuda no Centro de Atendimento à Mulher (CAM).
Ele me destrata o tempo todo. Reclama de tudo e me agride como se eu estivesse sempre fazendo alguma coisa errada. Às vezes acho que não vou aguentar. O marido de Madalena nunca bateu nela, mas usa o que os psicólogos chamam de violência psicológica - palavras e atitudes que usadas com frequência destróem a autoconfiança e auto-estima da pessoa.
As humilhações começaram ainda na primeira semana de casamento. Madalena conta que ficou surpresa quando o marido entrou em casa irritado com uma discussão com o pai e descarregou sua frustração em cima dela. Ele disse que eu não trabalhava, que se queria ganhar a vida não podia ficar parada sem fazer nada. Disse que não ia me sustentar.
Na época de namoro, diz, ele era carinhoso e dedicado. Descendente de espanhóis, o marido de Madalena já tinha um gênio forte mas nunca tinha sido brusco com a noiva, que namorou dois anos antes de se casar. Tinha esperanças de que ele mudasse. Achava que era uma fase, diz. As humilhações, porém, continuaram e nem os dois filhos do casal, hoje com 30 e 33 anos, ajudaram o pai a suavizar suas atitudes.
Tinha vergonha de contar meus problemas para os outros e não queria procurar a polícia porque não achava justo. Apesar de me tratar mal, ele é trabalhador e nunca deixou faltar nada em casa, afirma.
Ela só procurou o Centro de Atendimento a Mulher (CAM) em janeiro do ano passado. A gota dágua foi em dezembro, alguns dias antes do Natal. Madalena tinha ido à igreja para a novena e as orações só acabaram por volta das 22 horas. Quando ela chegou em casa o marido tinha trancado a porta e se recusou a deixá-la entrar. Ele gritava que seu eu tinha ficado na rua até aquela hora podia muito bem passar a noite fora também, contou.
Madalena só conseguiu entrar em casa porque um dos filhos mora perto e foi chamado pelos vizinhos para intermediar a discussão. Depois de crescidos, os filhos aconselharam Madalena a deixar o marido. Diziam que o pai estava cada vez pior e que não entendiam como eu aguentava, diz. Mas ela está decidida a continuar vivendo com o marido até que um de nós morra.
Por que ela se sujeita ao martírio? Madalena diz que o marido é assim porque tem ciúmes dela. Argumenta que, quando se casou, ele tinha problemas e precisou amputar uma das pernas. Não teria coragem de deixá-lo nessa situação. E deixar para quê? Para onde eu vou? Um dos dois vai ficar na rua. Madalena diz que o apoio do CAM tem ajudado a encarar com mais tranquilidade os problemas que vive. Sem isso eu acho que teria ficado louca.
(Célia Baroni)


