'Ele foi um exemplo de ser humano, tinha o coração bom'
Adão, Adélio e Geraldo eram três jovens amigos que moravam na Vila Recreio e, todos os domingos, atravessavam a cidade para nadar no Igapó, nas proximidades da barragem. Naquela época, toda aquela região atrás da Prefeitura era ocupada por sítios e chácaras que abrigavam todo tipo de moradores - até um padre alemão, que dava aula de história antiga na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Londrina, morava ali.
E foi esse padre que cruzou a vida de Geraldo num desses domingos em que os amigos foram nadar no Igapó. ''O padre Carlos nos viu e chamou para tomar água e conversar; depois, ele deixou a gente colher umas bananas pra comer e aí ofereceu trabalho: convidou o Adão para cuidar do jardim e das plantas; o Adélio, que era meio pedreiro, para fazer serviço de reparo na casa e eu para ser cozinheiro'', lembra Geraldo.
Cozinheiro por três anos, ele conta que, além dos legumes e das verduras, ''o forte da alimentação do padre era a batata, não faltava na mesa de jeito nenhum'', lembrando ainda que o ex-patrão gostava também de ''gulasch'', prato da cozinha alemã, espécie de guisado de carne de boi com molho branco, ''que era muito gostoso.''
Geraldo era também, como diz, ''meio secretário'' do padre: ''Eu fazia serviço de banco, levava ele para faculdade, aqui em Londrina e em Maringá, ia aos Correios, na charutaria do seu Alberto comprar charuto - ele comprava a prazo, era uma caixa por semana.'' Sobre a fama de mau-humorado do ex-patrão ele diz: ''Padre Carlos sempre foi muito educado comigo, só não gostava de atraso, quando isso acontecia, ficava de cara emburrada e o charuto correndo de um canto pro outro na boca, louco de raiva.''
Mas Geraldo não se esquece das bengaladas que o padre deu em dois estudantes que esbarraram nele e quase o derrubaram no Grupo Escolar Hugo Simas, como não esquece o bafafá que o ex-patrão aprontou com um grupo de travestis que foi nadar no Igapó e entrou em sua chácara para pedir água. Os travestis eram do grupo carioca Les Girls, que estavam em Londrina apresentando um show no extinto Cine Jóia.
''Eles já estavam na sala, um deles com uma toalha enrolada no corpo, só de tanguinha por baixo; quando o padre viu aquilo endoidou, veio que foi uma fera pra cima deles, tomou o copo da mão do cara de tanguinha e jogou a água nas costas dele, mandou embora, negou água, comida e ainda xingou os caras de tudo que é nome. Os travestis correram até o carro, pegaram uma arma, e deram uns tiros pra cima.''
Com os menores abandonados, no entanto, o padre se transformava, segundo Geraldo: ''Era a maior delicadeza, ele chamava as crianças, dava comida, comprava roupas e, se estudavam, comprava material escolar, ele tinha o coração bom.'' Entre outras revelações, ele conta que o padre gostava muito de tomar cerveja e underberg, na antiga Padaria Olímpia, ''mas era controladíssimo.''
Depois de uma convivência tão intensa, o motorista, sem frear a emoção, engata um reconhecimento: ''De uma brincadeira de criança, na beira do Igapó, conheci o homem que muito me ajudou na vida e que considero o meu segundo pai. Apesar de ser meio grossão, ele foi um exemplo de ser humano, tinha o coração bom, ajudava muita gente. Aprendi quase tudo com ele: a ser motorista, a ser honesto, sincero e a ter amor ao próximo, que era o que ele mais demonstrava, apesar da carranca.'' (A.T.)





