Margarida, 54 anos (nome fictício), já foi parar várias vezes no pronto socorro em decorrência dos ferimentos provocados por espancamento com objetos contudentes. O agressor é o marido com quem está casada desde os 19 anos. Nos braços e nas pernas carrega sinais de cortes profundos, resultado das brigas constantes. Já acordou com ele segurando a faca contra o seu pescoço e diz que só não morreu porque a filha acudiu e ela conseguiu fugir. O casal tem quatro filhos.
Ela conta que ele não deixava ela trabalhar e não trazia alimento para casa, deixando os filhos passar fome. ‘‘As crianças choravam de fome e eu pedia para ele ir comprar pão na padaria. Ele saia e voltava dizendo que não tinha mais, mas era mentira.’’
Quando os filhos entraram na idade escolar, Margarida enfrentou o marido para poder trabalhar. ‘‘Estava cansada de ver meus filhos sem ter o que comer. Mas meu marido piorou muito depois disto’’, conta.
Durante uma das brigas ele quebrou até a máquina de costuras que a mãe dela tinha dado e que era usada para confeccionar roupas para ela e as crianças. Em outra, o marido a atacou com uma faca porque ela decidiu assar um bolo, usando o leite que tinha ganho da mãe. Mas o marido não deixou, alegando que ela ia gastar o gás que ele tinha comprado. Cortou seu braço com uma faca e roubou o botijão de gás. Na rua abriu o botijão e soltou todo o gás.
A polícia, afirma, conhece de cor o endereço de sua casa, tantas as vezes que foi acionada para salvá-la das agressões do marido. Ela registrou várias queixas contra ele na Delegacia da Mulher, na esperança de assustá-lo e fazê-lo parar com a violência. Não adiantou, diz, acrescentando que as denúncias deixavam ele ainda mais bravo. ‘‘Dizia que antes de ser preso me matava.’’
Mesmo vivendo em constante risco, Margarida só decidiu se separar há dois anos, quando descobriu que o marido mantinha uma amante morando perto da casa deles. ‘‘Sofri muito. Ele foi muito desonesto comigo’’, lamenta. Mas poucos meses depois, o marido pediu para voltar, alegando que não podia viver sem ela e Margarida aceitou o pedido. Ele melhorou, diz, não bate mais nela com a violência de antes. ‘‘Eu ainda o amo, e acredito que a gente pode voltar a ter a vida boa dos primeiros 15 anos de casado’’, sonha.
Margarida recebe acompanhamento do Centro de Atendimento à Mulher há um ano. Está sem trabalhar há três anos porque caiu, quebrou a perna e não pôde retomar o serviço. ‘‘Se o CAM acabar vai deixar a gente como passarinho sem ninho. Aqui a gente conversa e trabalha; faz um tapete e consegue pensar melhor no que acontece com a gente.’’
(Célia Baroni)

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