'Ele ameçava me matar se eu contasse'
Luísa (nome fictício) considera que teve um relacionamento normal durante o período de namoro, mesmo descrevendo o parceiro como uma pessoa ''grosseira''. O rapaz era dez anos mais velho. Ela tinha apenas 17 anos. ''Ele era uma pessoa maravilhosa, eu estava apaixonada. Mas sempre me destratou, me chamando de boba e de burra.''
Foram cinco anos de namoro. Depois veio o casamento e cerca de dois anos depois, as agressões verbais se transformaram em agressões físicas. Durante os 18 anos de casados, as surras foram frequentes, inclusive na frente dos filhos pequenos, que também apanhavam. ''Tinha medo de separar dele, de não conseguir criar os filhos. Era muito dependente e muito insegura''.
Uma vez, conta, o marido chegou a bater nos pais dela, quando eles interferiram na briga. ''Até então não tinha contado nada para meus pais, que ficaram assustados. Ele ameçava me matar se eu contasse'', revela.
A última surra violenta aconteceu há quatro anos, quando Luísa ficou hospitalizada durante cinco dias. ''Ele chegou bêbado e foi me agredindo, do jeito que sempre fazia''. A surra foi presenciada pelo filho mais novo, na época com apenas quatro anos.
No hospital, Luísa foi orientada a denunciar o marido. ''Disseram que não me dariam alta enquanto eu não fosse à delegacia'', lembra. Na Delegacia da Mulher, ela prestou queixa, recebeu apoio para se separar do marido e desde o começo deste ano está sendo atendida pelo Serviço de Psicologia. ''Não foi fácil o processo de separação. Ainda não estou trabalhando, mas aos poucos estou retomando minha vida.''
A auto-estima está sendo resgatada. A filha mais velha, de 15 anos, também recebe atendimento. ''Meus filhos ficaram muito revoltados. São crianças agressivas e traumatizadas, que também precisam de acompanhamento'', afirma. ''O mais novo (com sete anos), quando briga com a irmã, faz igualzinho ao pai. É agressivo, xinga.''
O atendimento psicológico, segundo Luísa, está sendo fundamental. ''É muito bom falar sobre o problema, ouvir uma pessoa que entende e que pode ajudar. Está sendo muito importante para mim e para os meus filhos.''
Com Cristina (nome fictício) a situação foi diferente. Problemas psicológicos fizeram com que ela se desentendesse com o companheiro e fosse até a Delegacia da Mulher para denunciá-lo. ''Queria que ele saísse de casa. Quando cheguei lá, me fizeram ver que o problema era comigo'', revela. A mulher de 46 anos, mãe de cinco filhos e avó de um bebê, nunca foi agredida pelo marido. ''Os desentendimentos aconteciam porque eu não estava bem. Agora vejo isso, porque estou aprendendo a me conhecer melhor'', garante.
Na própria delegacia, a equipe de psicólogas identificou um grave problema de depressão, que vem sendo tratado, inclusive com ajuda de remédios. ''É muito bom ter alguém para desabafar, contar seus problemas. Elas sabem escutar, me entendem e me ajudam a resolver os problemas'', explica. ''Estava muito insatisfeita, não me sentia realizada profissionalmente, nem como mãe e amiga. Via só um futuro negro''. (M.O.)





