COMPORTAMENTO -

Efeito da pandemia: mais bicicletas nas ruas de Londrina

Seja por razões econômicas ou de saúde, o fato é que mais pessoas estão investindo em bicicletas como meio de transporte e prática de exercícios

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

Nos últimos meses, o número de bicicletas pelas ruas de Londrina cresceu. Essa é a percepção de algumas pessoas que utilizam esse meio de transporte há anos, como também para quem adotou essa rotina durante a pandemia. E os números comprovam.  Um levantamento realizado pela Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas) com empresas em diversas regiões do País aponta que o mercado de venda de bicicletas está crescendo, acompanhando uma tendência mundial. 



Efeito da pandemia: mais bicicletas nas ruas de Londrina
Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 



No mês de maio, o setor registrou uma alta de 50% em relação ao mesmo período de 2019. Um cenário bem diferente do início da pandemia do novo coronavírus, quando lojistas relataram uma queda de até 70% no faturamento. Na pesquisa, foram ouvidos mais de 40 associados da entidade, entre lojistas, fabricantes e importados. Eles destacaram as vendas das chamadas bicicletas de entrada, que são os modelos com preços entre R$ 800 e R$ 3 mil, para uso na cidade. 


Em Londrina, dois lojistas que trabalham com vendas de bicicletas e serviços de manutenção há décadas também comemoram os números. Magno de Vasconcellos, que atua há 28 anos na avenida Maringá, cita um aumento de 50% nas vendas e de 70% na oficina desde abril,  já que as bicicletarias se enquadram como atividades essenciais nos decretos estadual e municipal.  


“Vejo que a bike é um transporte alternativo utilizado por vários países e, com a pandemia, a questão do distanciamento, a bicicleta teve seu destaque como uma maneira de se manter em movimento, buscando o bem-estar, saúde e atividade física”, comenta.


'FALTOU ESTOQUE'

Na loja de bicicletas onde Rafael Moreno Alda atua como gerente, o estoque de bicicletas está zerado. “Hoje não temos bikes para quem quer. Vendemos até as seminovas. Está faltando em vários fornecedores. Como houve um aumento mundial, faltou estoque de peças para todos”, afirma. O comércio onde ele trabalha fica na avenida Leste-Oeste e existe há 66 anos.


Para Alda, o aumento da procura pelas bicicletas se dá pelo fechamento de academias e áreas de esporte e lazer, somado ao fato de que as pessoas estão buscando um transporte alternativo. “Tem muita gente que está tentando evitar andar de ônibus. Fora isso, tem também muitas empresas que estão aderindo às entregas com bicicletas”, ressalta.  


Efeito da pandemia: mais bicicletas nas ruas de Londrina
Folha Arte
 



DISPOSIÇÃO E REDUÇÃO DE GASTOS

Rodrigo Delattre, 26, passou a utilizar a bicicleta para ir trabalhar e tem visto muita gente fazendo o mesmo. “Acredito que tem a ver com a pandemia", diz, por experiência própria. Ele comenta que costumava andar de bicicleta por esporte, mas para se manter ativo durante a quarentena e também reduzir os gastos com carros de aplicativo e ônibus, passou a utilizá-la como meio de transporte. "Me sinto até mais disposto", afirma.

 

O engenheiro civil Luiz Afonso Giglio, 43, também utiliza a bicicleta para deslocamento. “Encontrei na bicicleta uma maneira gostosa e saudável de ir e voltar do trabalho, além de ajudar também na questão financeira. Por dia, gasto aproximadamente 55 minutos nos meus deslocamentos e durante este tempo consigo fazer minha atividade física e ter uma boa disposição para as atividades do trabalho e também na convivência familiar. Há mais de dois anos parei de fazer atividade em academia, pois só o uso diário da bicicleta já me dá um bom condicionamento físico”, diz.  


TRANSPORTE ATIVO

O engenheiro civil Luiz Afonso Giglio é membro da Associação Transporte Ativo, fundada há cerca de quatro meses em Londrina, com o objetivo de promover o reconhecimento do transporte ativo (não motorizado) através da conscientização e do cumprimento da Lei Federal nº 12587 de 2012, que trata da Política Nacional de Mobilidade Urbana, determinando a priorização do transporte ativo sobre o motorizado.  


"Nosso foco está no desenvolvimento sustentável, na integração social, na inclusão e priorização do transporte ativo no Plano de Mobilidade de Londrina e no fortalecimento da cultura da bicicleta e da caminhada perante a comunidade", explica.  


OMS  

Reduzir os contatos físicos como forma de prevenir e frear os casos do novo coronavírus foi uma das ações amplamente divulgadas pela OMS (Organização Mundial de Saúde). A entidade desenvolveu um informativo sobre as formas de deslocamento para que a população pudesse transitar com mais segurança e o caminhar e as bicicletas ganharam atenção.


SEGURANÇA

Para quem utiliza a bicicleta pelas ruas de Londrina, os obstáculos na questão da mobilidade urbana estão por todos os lados. A começar pela ausência de ciclovias e ciclofaixas, e também pela falta de respeito no trânsito.  


Camila Tabosa utiliza a bicicleta para qualquer compromisso, mas reclama da falta de interligações entre as ciclovias
Camila Tabosa utiliza a bicicleta para qualquer compromisso, mas reclama da falta de interligações entre as ciclovias | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


“Temos pouquíssimas ciclovias e não há interligações. Quando no meu trajeto existe ciclovia eu as utilizo mesmo que a infraestrutura seja ruim, justamente para influenciar e educar as pessoas sobre o objetivo daquela estrutura. Mas normalmente elas estão localizadas em calçadas e isso é muito ruim para o ciclista porque a estrutura de calçada é voltada para passeio e não para transporte. Além disso,  nesses trechos não há podas das árvores considerando um tamanho que seja bom para que o ciclista não bata a cabeça ou o próprio corpo na lateral. São situações que pode jogar o ciclista para a via de carros facilmente”, desabafa Camila Tabosa.  


Ela é professora de Ioga e utiliza a bicicleta para qualquer compromisso fora de casa, há pelo menos quatro anos. Ao circular pela cidade, ela diz que tem visto mais pessoas usando bicicletas. “Fico feliz. Tenho vizinhos que começaram a usar e acredito que houve um aumento pela recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) mesmo, como alternativa ao transporte particular e coletivo”, aponta. Porém, Tabosa lembra que ainda há uma parcela da população que não faz essa escolha justamente por conta da segurança.

 

Rodrigo Delattre que falou no início da reportagem sobre a experiência recente com a bicicleta como meio de transporte, também fala desses desafios. “Em uma das avenidas que eu passo até tem uma ciclovia, mas há uma intensa circulação de pedestres e ela cruza com muitas ruas, o que me faz parar a todo momento. Mas a maior dificuldade para mim são os condutores que não enxergam a bicicleta como parte do trânsito, colocando em risco nossa segurança”, afirma. 



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