O que é mais grave, o pai negligente ou o pai que superprotege o filho? À primeira vista, pode parecer que a falta de cuidado é mais preocupante que o excesso. Para a psicóloga Rosely Sayão, porém, os dois extremos causam o mesmo estrago na educação das crianças e adolescentes. Ela esteve em Londrina na última quinta-feira para uma palestra sobre o assunto, promovida pelo Instituto para o Cuidado da Família. Durante o tempo em que falou para uma platéia de quase 500 pessoas, apontou caminhos para vencer o grande desafio que é educar neste início de século.
Conhecida por seus livros e pela coluna que publica semanalmente em suplemento da Folha de São Paulo, Rosely acredita que muitos dos problemas relativos ao convívio entre pais e filhos hoje em dia têm a ver com a cultura individualista que predomina. ''Os pais que são negligentes nem sabem que estão sendo. Em uma cultura tão focada na própria pessoa, é difícil dedicar-se ao outro, e isto é educar. Os pais se preocupam com o que os filhos fazem, mas esta é a única atitude que tomam. E entre a preocupação e a ação há um longo espaço.''
A psicóloga explica por que, em se tratando de educação, negligência e superproteção têm o mesmo sentido, que é o de não educar. ''Educar é ensinar a viver. Não ensinar 'como' viver, mas mostrar como é a vida. E no fundo, tanto os negligentes como os superprotetores mantêm a mesma relação com os filhos, baseada na falta de crença naquela criança. É mais fácil controlar do que ensinar e é mais fácil deixar por conta do próprio filho do que ter o trabalho árduo de educá-lo.''
Para Rosely, exemplos comuns de negligência são pais que atrasam sistematicamente para pegar o filho na escola; pais que deixam o filho fazer coisas que não deve fazer; pais que dão tudo o que o filho pede; pais que cedem aos seus insistentes pedidos da criança. ''Costumo fazer um paralelo com as travas de segurança usadas nos carros, daquelas que só o motorista pode destravar as portas. No começo, as crianças vão tentar várias vezes abrir por conta própria, mas depois de 9, 10 tentativas vão parar, porque sabem que não vão conseguir. Com os pais é a mesma coisa. A criança está sempre tentando conseguir o que quer. A diferença entre a trava do carro e os pais é que a trava funciona'', compara.
Por outro lado, o desejo de poupar os filhos dos perigos do mundo pode, segundo a psicóloga, resultar em jovens doentes. ''Hoje nós produzimos jovens esquizofrênicos, que chegam aos 16 anos já tendo experimentado drogas (lícitas e ilícitas), já tendo praticado sexo, mas que nunca andaram de ônibus. Acham que andar de ônibus é perigoso demais. Como se as drogas não fossem perigosas, como se o sexo nesta idade não fosse perigoso.''
Educar, para a psicóloga que na década de 80 começou a escrever sobre sexo para adolescentes, é ter um pé no passado e outro no futuro. Entre a tradição e a inovação. ''Este é o lugar de pai e mãe: entre o passado, que eu devo ensinar ao meu filho, e entre o futuro, que ele próprio vai traçar.'' Rosely também aconselha os pais a pensarem em uma vida simples. ''Ter coisas não significa nada. Significa muito mais eu saber o que quero. E não se ensina isso a um filho dando presentes, mas marcando presença.''
Sobre os livros e programas de TV que dão receitas prontas de como educar os filhos, a psicóloga é incisiva: ''Não há receita milagrosa.'' Para ela, programas como 'Super Nanny' infantilizam os pais, menosprezam sua inteligência. Na sua opinião, melhor que aparecer no vídeo dando bronca nos pais, é fazer com que eles pensem e respeitar a condição de adultos que são.
''Uma mãe me disse uma vez uma frase que acho maravilhosa: 'a maior injustiça que a gente pode cometer com os filhos é tratá-los todos da mesma maneira.' Se a gente estiver atento, o filho dá as dicas do que ele precisa, em que tempo ele precisa. É preciso aprender a ouvir a criança.'' Mas a criança, lembra ela, fala a seu modo, através de sinais. ''Por exemplo, quando a filha adolescente deixa 'sem querer' o diário aberto em uma página onde está escrito algo que a mãe não aprova, isto é um pedido de socorro. É preciso fazer esta escuta, e os pais hoje em dia não ouvem, a não ser eles mesmos.''

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