''Professora, meu pai e minha mãe têm Aids''. A revelação de uma menina de 12 anos, aluna da sexta série da rede pública, mudou os rumos da vida profissional da professora Angela Buena Germinari Basílio. Era aula de Ciências e todos foram surpreendidos pela afirmação espontânea da garota. A turma emudeceu. Angela respirou fundo e concluiu que não estava preparada para falar sobre qualquer questão que envolvesse sexualidade.
A professora buscou ajuda no Grupo de Estudo Sobre Educação Sexual (Gees), do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e há cinco anos vem estudando sobre o assunto e aplicando sua experiência em sala de aula.
Coordenado pela psicóloga, especialista em educação sexual e professora da UEL, Mary Neide Damico Figueiró, o Gees é um projeto de extensão da universidade, criado em 1995, com objetivo de formar educadores sexuais. As experiências vivenciadas no projeto viraram tese de doutorado de Mary Neide e resultaram no livro ''Formação de educadores sexuais - adiar não é mais possível'', lançado em 2006.
Recentemente, a publicação recebeu prêmio da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash). ''O livro mostra uma forma de trabalhar a educação sexual em nível de extensão. É um modelo, não uma receita'', explica a autora. ''O que observei de mais importante foi que, participando de um trabalho como esse, o professor cresce, acima de tudo, como pessoa. Melhora a auto-imagem, o rendimento no trabalho, a motivação profissional'', completa.
O trabalho revela a experiência de professores do ensino fundamental da rede pública em Londrina que frequentaram o Gees em 1997 e durante os dois anos seguintes desenvolveram atividades nas escolas sob a supervisão do grupo de extensão.
Os participantes do Gees têm encontros, em grupo, uma vez por semana na UEL, durante o ano todo. Lá discutem temas variados e esclarecem dúvidas. ''Não é um curso técnico. Damos espaço para que o educador repense seus valores, tabus, sentimentos e se reeduque sexualmente'', explica Mary Neide.
Porém, segundo a psicóloga, só frequentar o grupo não basta para que o profissional consiga levar o trabalho adiante em sala de aula. É essencial apoio técnico. ''As condições de trabalho dos educadores hoje são muito massacrantes. Por em prática um trabalho de educação sexual se torna difícil sem uma assessoria, pois vão surgir dificuldades'', pondera.
Pensando nisso, a psicóloga inscreveu o Gees no ''Programa Brasil sem homofobia'', do governo federal. Conseguiu a aprovação e contratou uma equipe de quatro psicólogos, que ganham bolsa para atuar nessa segunda etapa do trabalho, de assessorar o educador.
Segundo Mary Neide, de 70 a 80 educadores que passam pelo Gees durante o ano, apenas 20% voltam para o trabalho de assessoria. ''Sabemos que há muita dificuldade de apoio estrutural. É um trabalho que depende muito do apoio da Secretaria de Educação'', avalia.
A psicóloga explica que a educação sexual é muito mais do que uma aula planejada. ''A forma de agir do professor em determinadas situações já é uma aula de educação sexual. Ele tanto pode passar uma idéia tranquila sobre sexualidade como a idéia de algo sujo, feio'', diz.
Segundo Mary Neide, não tem receita e cada educador vai encontrar a melhor forma de abordar a sexualidade. ''A gente sempre orienta o professor para que não fique esperando surgir uma situação em sala de aula, mas que crie situações para falar sobre determinados temas'', repara.
Ela diz que é comum os professores se sentirem inseguros ao abordar a sexualidade por achar que podem incentivar os alunos a fazer sexo. ''Pelo contrário, conversar sobre o assunto faz com que crianças e adolescentes encarem o sexo com mais serenidade, naturalidade. As pesquisas mostram que jovens que têm trabalho de educação sexual na família e na escola iniciam a vida sexual mais tarde que os demais'', conta.
Conforme a psicóloga, o trabalho deve começar na educação infantil, ensinando as crianças a conhecerem seu corpo e esclarecendo com naturalidade as dúvidas que vão surgindo. ''A educação sexual é um direito (de crianças e jovens). Conhecendo o tema, eles vão poder formar opinião e tomar suas próprias decisões com liberdade e responsabilidade'', afirma.

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