Londrina - Como trabalhar as relações étnico-raciais com os alunos? A professora Priscila Garcia, da Escola Municipal San Isidro, do Jardim San Isidro (zona sul de Londrina), é descendente de negros e de italianos, e disse abordou o assunto a partir de suas características e de sua origem. "Eu sou loira, mas começa aí a mistura com a qual dialogo com os meus alunos", explicou. Ela é uma das participantes do curso "Educação para as relações étnico-raciais" ministrado pela Secretaria Municipal de Educação para os professores desde o dia 7 de outubro e que será concluído no dia 29 deste mês.
Priscila também encontrou na literatura uma ferramenta para ser usada em sala de aula. Ela conta que utiliza o livro Arca de Ninguém, que conta a história de Noé. Ele construiu uma arca para salvar os animais, mas teve problemas para convencê-los a entrar na embarcação, porque eles não toleravam as diferenças. A partir disso ela foi orientando seus alunos a respeitar as características de cada um. Baseado nisso, eles criaram o slogan "Todo mundo no mesmo barco".
Segundo Priscila, trazer a cultura da África para a sala de aula ainda causa estranhamento nas crianças. Ela diz que ao levar situações de negros em posição de destaque, bem-sucedidos, muitos alunos perguntam "Como esse negro conseguiu isso?" "O negro tem um estigma de incapacidade. Isso tem que ser desconstruído em nível de sociedade. A capacidade da pessoa não está vinculada à cor ou com a questão cultural ou à questão financeira", salientou.

PASSAGEM
Uma das palestrantes do curso, Elena Maria Andrei, é professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), doutora em Antropologia e com mestrado e doutorado na área de estudos africanos. Ela destacou que a escola precisa melhorar e muito seu nível de informação, de comprometimento e sua sofisticação pedagógica. "A escola é a passagem da socialização primária, que é a da família, para a socialização secundária, que é a da sociedade. A escola é fundamental nesse processo. Ainda está deixando a desejar, mas está avançando e, sem dúvida nenhuma, é o eixo de mudança", ressaltou Elena, que tratou do tema Literatura infantil no trabalho com a história e a cultura africana e afro-brasileira.
A professora destacou que apenas 2% dos professores no Brasil são negros. "O racismo se tornou parte da estrutura de seu próprio país. A lei nº 10.639 obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira em todos os níveis da escola. Trata-se de um processo lento, mas não é desculpa para não fazer. Não tem como desprezar 50% de sua própria população", salientou.
Segundo Elena, as crianças e jovens atuais estão vivendo no mundo da globalização, então o processo da diversidade tem tudo a ver com a realidade deles. "Mas temos diversas situações: pais brancos que não querem que seus filhos se relacionem com negros, pais negros que não honram sua origem, pais negros que querem aniquilar de seus filhos a cultura negra para que seus filhos não sofram preconceito. Tem um pouco de tudo. Estamos vivenciando um momento em que os parâmetros e valores se diluíram", ressaltou.

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