‘‘O aluno não parava de rir, mais parecia um orangotango’’. ‘‘Você só perturba, por que não volta para a África onde é seu lugar?’’ Estes depoimentos violentos no conteúdo racista foram dados por professores durante uma pesquisa que está sendo realizada pelo Instituto de Cultura e Educação do Rio de Janeiro e muitas vezes pronunciados em salas de aula.
A discriminação e o preconceito reproduzidos em salas de aula pelos próprios professores assustam num primeiro momento mas revelam como o desrespeito pela diversidade humana está incutido no sistema educacional. A abordagem foi feita pela antropóloga Neusa Maria Mendes de Gusmão, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas (SP).
Ela esteve em Londrina, recentemente, durante encontro de Ciências Sociais que discutiu a diversidade cultural. Neusa de Gusmão afirma que não existem professores ‘‘maus’’, mas ‘‘possíveis’’ levando em consideração a formação dos educadores, a forma como o modelo educacional é imposto, as condições de trabalho, a trajetória de vida dos professores.
‘‘O professor reproduz muitas vezes idéias e conceitos que vêm dos modelos institucionais e que promovem a discriminação social, racial, étnica, religiosa, cultural’’, explica. Neusa de Gusmão afirma que a discriminação é promovida e reforçada na educação escolar de diversas formas.
Ela cita desde os livros didáticos que mostram os ‘‘diferentes’’ (negro, índio, etc) em situações de desprivilégio ou mesmo ausentes, o programa único de educação para todo o Brasil sem levar em consideração as realidades locais e regionais até a qualidade de vida do professor que precisa lecionar em três escolas diferentes para sobreviver. ‘‘Nesta situação, como exigir disponibilidade para troca com a criança?’’, questiona.
As condições salariais, desvalorização do professor, sucateamento da escola pública são alguns dos fatores que fazem com que o próprio educador acabe, sem perceber, reproduzindo e reforçando a discriminação e o preconceito de nossa sociedade, os quais geram a violência. Segundo a antropóloga, falta ao Brasil um programa efetivo, e não ideológico, que promova um sistema educacional atento para as diversidades humanas e não voltado para a padronização do indivíduo.
‘‘No Brasil existe apenas o discurso. Este está presente nas campanhas políticas que levantam como preocupações primordiais dos candidatos questões relacionadas à educação, saúde, moradia. Só que estas mesmas questões são as primeiras a serem esquecidas depois das eleições’’, afirma. Isto acontece pelo óbvio: é interessante manter o povo preocupado com as necessidades básicas de sobrevivência.
Falta para o Brasil, na avaliação da antropóloga, uma política nacional que propicie práticas educacionais voltadas para as diversidades. Neusa de Gusmão afirma que a Lei de Diretrizes e Base (LDB) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) representam algum progresso em âmbito legislativo se comparados às leis anteriores. Mesmo asssim existem brechas nestas leis que ‘‘são verdadeiras armadilhas para uma tradição discriminatória como a do Brasil’’.
O mesmo governo que implanta os temas transversais com os PCNs, nos quais as escolas devem abordar as diversidades locais e regionais, apresenta cartilhas como moldes através dos quais devem ser estudadas estas diferentes realidades. ‘‘As escolas não possuem autonomia’’, afirma. Outra ‘‘brecha’’ das leis que acabam promovendo a discriminação das diferenças é a institucionalização de um dia específico para comemorar culturas diversas: o dia do negro, do índio, e de outras nacionalidades.
Sem a existência de práticas educacionais voltadas para o respeito das diversidades humanas, alguns grupos acadêmicos buscam promover uma reflexão sobre o assunto. Para isto, estes grupos tentam incluir a antropologia como disciplina dos cursos de formação dos professores, justamente por ser esta uma ciência que busca compreender o ser humano através de suas diversidades.
‘‘A educação que temos trabalha no sentido de padronizar, enquadrar o cidadão. Por isso, a antropologia tem muito a contribuir’’, afirma. Neusa de Gusmão ressalta que as reformas curriculares eliminaram as principais disciplinas que levam à reflexão, como a sociologia, por exemplo, o que demonstra como cada vez mais busca-se a padronização do ser humano reforçando a discriminação e promovendo a violência.
‘‘O currículo de educação está cada vez mais técnico, não visa a formação do ser humano, mas da força de trabalho. Pior que isto, estes currículos já classificam aqueles (alunos) que vão ser alguém na vida (os dominantes) e aqueles que serão os dominados, reproduzindo o modelo de descriminação do sistema capitalista’’, frisa.
Por enquanto, apenas a Unicamp e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outras isoladas já incluíram a disciplina de antropologia no currículo de cursos de pedagogia.

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