Você se lembra das aulas de educação física que teve ao longo da vida escolar? Provavelmente sim. Profissional ainda pouco valorizado no País mas que costuma marcar a vida da criança, o professor de educação física tanto pode despertar no aluno uma grande paixão pelo esporte, como pode fazê-la enterrar qualquer aptidão nesta área. A consciência deste poder está fazendo surgir nas escolas brasileiras um novo tipo de profissional, que não se restringe a ensinar o esporte como competição. Um profissional comprometido com a tarefa de lapidar os cidadãos do futuro.
Esta tendência não é nova nos países desenvolvidos, mas só há alguns anos começou a ser disseminada por aqui. ''No Brasil as mudanças na área de educação são muito lentas'', afirma o professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) Valdir Barbanti. Doutor em educação física pela University of Iowa (USA) e autor de vários livros sobre treinamento esportivo, Barbanti explica que há um esforço da profissão para valorizar o conceito da prática do movimento como forma de estimular a qualidade de vida.
''Nunca morreu tanta gente nova de enfarto como agora. Nesta luta para sobreviver e se sobressair no mercado de trabalho, esquecemos das necessidades do corpo.'' O professor esteve na cidade recentemente a convite da UEL e Fundação de Esporte de Londrina (FEL) para dar a aula magna no curso de Ciência do Esporte e um curso para acadêmicos e profissionais da rede municipal de ensino.
Barbanti sempre dedicou atenção especial a crianças e jovens, que segundo ele passam por um processo de diminuição drástica dos movimentos. ''Tivemos um grande avanço tecnológico e intelectual, mas perdemos em quantidade de movimento. E o professor de educação física, por trabalhar com todas as faixas etárias, pode oferecer esta contrapartida. Não importa o movimento que se faça, o importante é gastar energia'', argumenta Barbanti. Ele afirma que pela forte influência que tem nas crianças e jovens, o professor tanto pode ''fazer um campeão como fazer um criminoso''.
Defensor de um ensino que educa para a vida, Barbanti acha que mais do que ter informação, o professor tem que saber lidar com emoções. Uma receita que certamente dá mais trabalho, mas que pode ser mais gratificante do que simplesmente chegar na quadra e soltar uma bola nas mãos dos alunos. ''Antigamente, simplesmente ensinávamos a criança a jogar. Hoje usamos o jogo como meio de reflexão'', ensina a professora Susy Carneiro, da Escola Municipal José Garcia Villar, no Jardim Interlag®MD77¯®MD77¯os (Zona Leste).
Trabalhando na área há 22 anos, ela lembra que quando começou, as aulas eram mais tradicionais, focadas no rendimento do aluno. ''Na década de 80 começaram as primeiras mudanças, no sentido de mostrar ao aluno o porquê de estar fazendo o exercício e como ele irá ajudá-lo no seu dia-a-dia'', explica.
A FOLHA foi encontrá-la em meio a uma turminha barulhenta, entre 8 e 9 anos, jogando bolinhas de pingue-pongue em mesas montadas no chão, delimitadas com barbante. ®MDNM¯Mas, segundo Susy, aquele não era um simples jogo. ''Mais do que uma mistura de tênis e pingue-pongue, esta atividade tem o objetivo de fazer com que as crianças percebam que é preciso respeitar o espaço do outro.'' Susy faz parte do grupo de profissionais da rede municipal que se reúne constantemente para repensar a proposta pedagógica na área.
A professora conta que antes de ir para a quadra, os conceitos são trabalhados em um bate-papo com as crianças. A idéia é fazer com que o aluno, quando inicia o jogo, entenda o que está fazendo. O pequeno Íkaro Pereira Numajiri, de 8 anos, é um exemplo do que algumas raquetes, bolinhas e metros de barbante podem fazer: ''Aprendemos ®MDNM¯que a gente não pode entrar na casa dos outros sem ser chamado. A sala de aula, por exemplo, é um espaço de todos, mas tem hora que a gente tem que ficar só na carteira, que é o espaço de cada um''. Como prova de que a receita adotada pela professora é boa, o garoto revela que, ao lado de informática, educação física é a disciplina que mais gosta.

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