Educação faz levantamento de jovens e adultos não alfabetizados
Questionários foram encaminhados para serem respondidos pelas famílias de alunos de escolas municipais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Questionários foram encaminhados para serem respondidos pelas famílias de alunos de escolas municipais
Ana Elisa Frings - Estagiária* 

Cerca de 900 alunos estão matriculados no programa EJA; número abaixo da realidade
A secretaria de Educação de Londrina distribuiu questionários nas escolas e municipais, centros municipais de educação infantil e e centros filantrópicos para que os alunos encaminhem as perguntas aos pais ou responsáveis. O intuito é conhecer se nas famílias dos estudantes há pessoas não alfabetizadas ou que não concluíram os primeiros anos de ensino e ainda não estão matriculados na EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Segundo a coordenadora da Educação de Jovens e Adultos em Londrina, Dilceia Cardoso de Lima, a distribuição dos questionários, que foram preparados pela secretaria e professores da EJA, entre as famílias das mais de 43 mil crianças deve alcançar uma boa parte do público-alvo do programa. “Apesar das duas convocações anuais que fazemos na mídia e em locais como postos de saúde e supermercados, os 900 alunos atualmente matriculados estão muito abaixo das 21.872 pessoas apuradas em 2016 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)", explica.
O questionário vem sendo preparado desde 2018 e esta será a primeira vez que uma avaliação do tipo será aplicada na cidade. As escolas e instituições devem receber os formulários preenchidos até esta quarta-feira (19). “Queremos saber sobre as pessoas que moram na residência de cada aluno. Esperamos que as famílias indiquem se há alguém analfabeto ou que não tenha concluído até o 5° ano do Ensino Fundamental. Com estas informações será possível posteriormente fazer um contato direto, por telefone ou pessoalmente, e convocar estas pessoas a procurarem o EJA."
As informações obtidas também vão possibilitar conhecer detalhes dos números dessa população, explica a coordenadora, e a partir disso organizar e abrir mais vagas nas escolas municipais que ainda não sediam este tipo de ensino na cidade.
'CEGA PARA O MUNDO'

Maria das Graças Batista: "A professora ajuda muito a gente"
Uma sala majoritariamente de alunas adultas e idosas funciona no prédio do CEEBJA (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos) Herbert de Souza, na Vila Nova (centro de Londrina). A escola, mantida pelo governo estadual, para ensino do 5° ano do Ensino Fundamental, cedeu uma das salas para o Município, que conduz uma turma de 10 alunos em processo de alfabetização, parte da primeira etapa da educação de jovens e adultos. A turma na escola existe há 4 anos.
Maria de Lourdes Souza Silva, 70, veio de Ortigueira (Campos Gerais) para Londrina ainda jovem. Como morava no sítio e não tinha muito estímulo em casa, acabou deixando a escola. “Aqui eu estou aprendendo as coisas como litro, mililitro, quilos, miligramas. Eu sabia que tinha o litro, mas não sabia que tinha também o quilo, miligrama. Estou muito feliz, de coração, eu me sinto muito bem na escola. Poder aprender a ler e escrever, e assim sei onde meu dinheiro vai. Aprendemos sobre consumo e sei que tem que gastar menos." conta a aluna. A sensação, relata, é muito boa e deseja aprender ainda mais. "Já me perdi pegando ônibus, agora já fui pra Curitiba, sei andar por aí. É uma sensação muito boa, quero aprender sempre mais." , completa.
Sua aula preferida foi sobre a história de Londrina e conhecer um teatro, que visitou pela primeira vez. O próximo desejo é trazer o marido também para as aulas. "Eu já estou ensinando em casa, quando ele lê errado . E nossa professora é uma benção, está ensinando gente muito bem.”
Outra aluna de 63 anos, Maria das Graças Batista, começou a estudar por intermédio da filha, quando percebeu que a mãe estava adoecendo e procurou a EJA para ela ter mais uma atividade. “Não sabia nada, estou aprendendo bastante já. Eu frequentei uma outra escola, por 6 meses, mas era bem diferente, aqui temos mais união com as colegas, a professora ajuda muito a gente."

Maria de Lourdes Souza Silva: "É uma sensação muito boa, quero aprender sempre mais"
HISTÓRIAS E COSTURA
Além das aulas, elas fazem parte de um projeto organizado pela professora Fernanda Guelere para treinar a leitura enquanto costuram. Tecidos são reaproveitados para criar peças, algo que remete também à sustentabilidade e redução no consumo; e elas passam a conhecer gêneros diferentes de literatura, como notícia e literatura. No momento estão lendo A Moça Tecelã, da escritora Marina Colasanti.
Além disso, os conteúdos são adaptados para que o conhecimento de vida que cada aluno seja aproveitado e ajude a explicar os conceitos ensinados nas aulas. Como por exemplo o uso de folhetos de lojas e supermercados para entender sobre preços, descontos e também para alertar sobre armadilhas de consumo. “Para chegar no conteúdo em si você tem que elaborar muito mais as questões afetivas, autoestima, tudo isso faz parte do conteúdo. Na verdade temos um currículo concreto e um outro abstrato”, descreve a professora. "E é muito comum ouvir nessas turmas de adultos como eles percebem um novo mundo que se abre ao ver os conteúdos se relacionando com a realidade. Já ouvi de diferentes estudantes, que quem não sabe ler é uma pessoa cega para o mundo ", complementa.
SERVIÇO - Pessoas acima de 15 anos que queiram voltar para a escola podem procurar uma das escolas que oferecem a EJA com um documento de identificação em mãos e um comprovante de residência, a qualquer tempo. O início das aulas é imediato. A lista das escolas em Londrina que oferecem a EJA está disponível no site da Prefeitura: https://www.londrina.pr.gov.br/, na aba da Secretaria de Educação > Educação Básica > Ensino Fundamental> EJA / PROJOVEM. Ou pelo telefone da coordenação da EJA (43) 3375-0215 .
*Supervisão Lucilia Okamura - editora de Cidades


