Um professor não se realiza sozinho. É através dos seus alunos que aprende a ensinar e vê, materializado em palavras, o resultado de seu ofício. Assim é e assim está sendo com uma turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA) que freqüenta as aulas oferecidas na Escola Municipal José Garcia Villar, no Jardim Interlagos (Zona Leste de Londrina). Hoje à noite, os alunos se reúnem para a derradeira aula do ano letivo e aproveitam para celebrar a conquista de terem conseguido publicar um livro com
um pedacinho de suas histórias de vida.
  A simplicidade abissal da obra ‘‘Eternas Lembranças’’ chega a incomodar os que não desfrutam da convivência diária com a democrática turma de alunos, cujas idades variam de 15 a 77 anos. Cada um dos mais de 30 estudantes deu sua contribuição, deixando-se expor em textos curtos, sem rebuscamentos, mas intensos de coragem. Em poucas linhas, cada um escreveu sobre a infância sem escola, as brincadeiras trocadas pelo serviço pesado na roça, as dificuldades da vida adulta... Tudo era sem cor até redescobrirem que tinham direito de também ser felizes. Pela educação, voltaram a sonhar.
  A idéia, tão singela quanto genial, surgiu da cabeça de três educadoras que apostaram no poder transformador das letras. O nome delas: Célia Sampaio, alfabetizadora; Maria Isabel Nogueira Salomão, responsável pelas aulas de reforço e avaliações; Mariza Correia de Oliveira, auxiliar pedagógica. As três viram talentos onde outros veriam barreiras, capacidades especiais onde a maioria enxergaria apenas necessidades especiais. ‘‘Temos, sim, muitos alunos especiais’’, comemora Mariza.
  O trio conta que o projeto do livro foi pensado para a disciplina de informática, porque a maioria esmagadora tinha pavor do computador. Paciência foi a chave. ‘‘Todos tinham medo de ligar, apertar as teclas. Mas depois, não tiveram mais medo de errar, arriscar. Foram e fizeram. Para nós, dá uma baita esperança ver o que eles conseguiram realizar’’, valoriza Maria Isabel. Após seis meses de trabalho duro, os textos foram encaminhados para a Assessoria de Informática da Secretaria Municipal de Educação que, esta semana, devolveu o livro impresso, que hoje será distribuído para a turma.
  Com 58 anos, Vanilde Silva dos Santos admite que tinha perdido a alegria após ficar viúva pela segunda vez. Quando jovem, o pai não permitiu que ela estudasse. Casou, veio para a cidade, pariu seis filhos, foi avó cinco vezes e continuou longe da escola. Até que um ano atrás... ‘‘Hoje não tenho mais tristeza, porque a escola preenche todo o vazio do meu coração. Vou estudar até quando tiver força nos braços, nas pernas e na cabeça.’’
  Mais experiente da turma, Altino Bento chega aos 77 anos desafiando a modernidade. Freqüenta o EJA há dois anos. ‘‘Aqui eu fui aprender tudo que eu esperava e fiquei muito alegre quanto escrevi meu nome’’, confessa. ‘‘O livro é outra grande coisa, uma conquista’’, completa. Portadora de Síndrome de Down, Amanda Pelisser, 18, é um dos xodós do grupo. A mãe, Cristina Pelisser, conta que a adolescente ‘‘deslanchou’’ com as aulas. ‘‘Ela tem computador em casa e se vira sozinha’’, celebra.

Algumas histórias dos autores

  ‘‘Sou feliz porque vou à igreja no culto, para a Escola Dominical e depois para casa... Eu vou passar de ano e vou para outra escola. Obrigado à professora Maria Isabel e Mariza. Eu vou sentir falta de vocês porque eu vou para outra sala de aula... Lá vou fazer muitos amigos e vou estudar bastante para ser professor. Eu vou voltar para ver meus amigos, minhas professoras e o diretor, que é meu amigo.’’  
Leandro Lourenço Vieira Farias

  ‘‘Eu gosto de viajar de avião. Não gosto de cobrador. Sou feliz porque sonho em ter uma fazenda. Eu não estudei quando era criança porque as crianças da escola batiam em mim. Hoje estou na escola porque quero ser médico.’’  
Dorival Ferreira

  ‘‘Eu gosto de trabalhar e não gosto de inimizade. Sou feliz porque eu tenho saúde. Eu não estudei quando era criança porque meus pais não deixaram. Hoje estou na escola porque pretendo ler e escrever. Nasci em Minas Gerais e com 14 anos vim para Londrina. Moramos numa fazenda e após algum tempo meu pai disse que ia levar um rádio para arrumar e fugiu com outra mulher. Então, minha mãe teve que dar os filhos para outras famílias criarem... Antes dos 14 anos tive meu primeiro filho e de ano em ano tive meus quatro filho, sempre trabalhando como doméstica.’’  
Antônia Rodrigues de Souza

  ‘‘Meus pais tomavam conta da Fazenda Santa Maria. Tive uma infância ruim porque não estudei, não brinquei muito e tinha muita tristeza no coração por não estudar. Sou casado com a Lídia e tenho seis filhos. Hoje sou feliz porque tenho muita amizade com os filhos. Eles me respeitm muito, porque eu sempre os tratei com muito amor e carinho. Hoje estão todos cuidando bem de suas famílias e educando seus filhos no amor de Deus.’’  
Altino Bento

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