Educação errada é o desvio para o mal
Érika Pelegrino
De Londrina
O ingresso dos adolescentes no mundo das drogas e das infrações começa em casa, como resultado da educação permissiva, da falta de limites e da negligência principalmente dos pais. A avaliação é da promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina Édina Maria Silva de Paula, para quem a inversão de valores na educação tem levado adolescentes e pais até a Justiça para resolver conflitos que anteriormente eram resolvidos dentro dos lares.
Como exemplo ela menciona pais que oferecem a seus filhos telefones celulares e roupas de marcas, mas deixam de dar a eles o abraço e um toque carinhoso. É comum pais chegarem aqui (na Vara da Infância e Juventude) afirmando que não entendem porque têm tantos problemas com seus filhos se eles tem celular e roupas de marca, conta. Tem mãe pobre que é faxineira e chega aqui dizendo que o filho só usa calça de marca.
O problema é justamente este, alerta a promotora. Os pais tem que impor limites e responsabilidades aos seus filhos. Édina diz que as mães que trabalham fora sentem-se culpadas e compram seus filhos com bens materiais, deturpando a educação das crianças. As mães precisam entender que mais importante que a quantidade é a qualidade do tempo que oferecem a seus filhos. Elas têm que tocar suas crianças, beijar seus filhos. Hoje existe muita negligência afetiva por parte dos pais, afirma.
Os pais se perderam na educação dos filhos e, de acordo com a promotora, o que antes era resolvido dentro dos lares ou nas escolas vai parar na Vara da Infância e da Juventude, para o Judiciário resolver. Tem mãe que chega aqui e diz que não quer mais saber do filho, que não consegue mais lidar com ele. Eu costumo dizer que depois que elas deseducaram as crianças querem que o Estado cuide delas.
O resultado, muitas vezes, são adolescentes envolvidos em drogas e deliquência. A dona-de-casa Edir Diniz vive este drama com o filho L. L., que usa drogas desde os 14 anos. Hoje, aos 16 anos, a mãe afirma que o garoto está fora de controle.
Ela se diz desesperada e sem saber o que fazer para ajudar o filho. Sem condições financeiras para pagar um tratamento particular para o filho ela cobra do Estado que interne o menino para fazer uma desintoxicação. A promotora Édina explica que não é possível internar o jovem contra a vontade dele.
As clínicas públicas existentes são abertas e a pessoa só fica para o tratamento se quiser. O adolescente, segundo a promotora, já passou por várias clínicas públicas, mas sempre abandonou o tratamento. Um jovem que está usando drogas não vai internar-se por vontade própria, consola-se dona Edir.
A família, segundo a dona-de-casa, está desestruturada em função da dependência do adolescente. A irmã mais nova de L.L., que está com 9 anos, reclama do irmão e diz não aguentar mais a situação. A mãe de dona Edir tem 80 anos e é hipertensa.
Vivo com medo das ameaças do meu próprio filho, diz dona Edir. A preocuparção da mãe é com as relações de Luciano com traficantes. Recentemente ele e meu sobrinho, que também usa drogas, esconderam-se na casa da minha irmã e traficantes invadiram o lugar para procurar por eles, conta. Ele não pára mais em casa, vive nas ruas e já estão perseguindo ele. Qualquer assalto que acontece na vizinhaça chamam a polícia e acusam o meu filho. Muitas vezes ele é inocente.
Sem saber como lidar com o filho, a própria dona Edir já chamou a polícia para levá-lo. Ele rouba dinheiro em casa, reclama. A promotora Édina afirma que dona Edir quer que o filho seja encaminhado para um educandário, mas as infrações de L.L. não justificam a prisão. O internamento forçado pelo Estado só é possível para presos, segundo a promotora.
Wanda Maraluz Herek é outra mãe que já viveu o mesmo drama de dona Edir e reclama da falta de uma clínica pública para internamento de jovens usuários de drogas. Tem que existir um lugar onde o jovem seja levado mesmo contra a vontade para fazer uma desintoxicação, afirma. Depois de desintoxicado daí sim é possível a família, com apoio de psicólogos, fazer um trabalho de convencimento do jovem sobre a necessidade do tratamento.
Ela admite que o tratamento só tem resultado se o jovem o faz de livre e espontânea vontade. Mas, para aceitá-lo, é preciso primeiro que ele passe por uma desintoxicação. Quem tem dinheiro paga uma clínica particular. E quem não tem? Como faz para ajudar o filho? Na opinião de Wanda, o Estado teria que oferecer este lugar para os dependentes de drogas e não contar apenas com as clínicas de tratamento.
Wanda conseguiu livrar o filho das drogas com a ajuda do grupo Amor Exigente, que trabalha no aconselhamento e apoio de pais e dos jovens usuários. Ela conta que o filho também começou a usar drogas com 14 anos. Eu lutei como uma leoa, junto com meu marido, para tirá-lo deste inferno, lembra. Fui considerada uma louca, como a dona Edir, mas que mãe não fica desiquilibrada vendo seu filho ser consumido pelas drogas?
José Herek, marido de Wanda, relata que depois de muitas tentativas para ajudar o filho, descobriu através do grupo de apoio que o problema da drogadição nasce de falhas na educação das crianças. Para ajudar o filho você tem que admitir que existem erros na educação que deu para eles e tem que mudar seu comportamento diante dos filhos, afirma.
Como casal acotenceu que a princípio o filho não aceitava as regras rígidas que passaram a ser impostas e saiu de casa. Ele foi embora, fez a sua escolha e só poderia retornar para casa no dia que quisesse ajuda. Foram cinco meses de tortura para José e Wanda, que não cederam aos apelos do filho pedindo para almoçar em casa aos domingos, para fazer visitas à família. Foi muito difícil, eu entrei em depressão, mas não podíamos ceder, lembra. Depois de cinco meses, ele ligou de madrugada para nós pedindo ajuda.
Na época, segundo os pais, o filho estava com 19 anos. Ele voltou para casa e aceitou todas as regras. Não podia atender a porta e ao telefone, não podia sair de casa para nada durante um mês. Este período era preparatório para ele ir para uma fazenda do Amor Exigente onde faria o tratamento, conta Wanda.
O filho não foi para a fazenda, por opção, mas aceitou as regras impostas pelos pais: durante um ano ficaria internado dentro de casa. Hoje ele está sem consumir drogas há um ano e meio. Os primeiros cinco anos são determinantes para quem está deixando as drogas. Sabemos que ainda temos um tempo até que nosso filho esteja realmente livre, diz Wanda.
Hoje o jovem faz parte do grupo Amor Exigente, onde trabalho no apoio aos jovens usuários de drogas. Os pais que vivem este drama têm que tomar consciência de que não sabem educar seus filhos e que precisam de ajuda, alerta o pai, José Herek.Promotoria da Infância e da Juventude aponta a negligência dos pais entre os fatores que levam adolescentes à delinquência
Mário CesarCésar AugustoEM BUSCA DE SOCORROG., do interior do Estado de São Paulo (acima), busca apoio em casa de recuperação de Londrina para se livrar das drogas; ao lado, dona-de-casa Edir Diniz, que procura meios para tratar filho de 16 anos, dependente de drogasArquivo FolhaPromotora Édina Maria Silva de Paula, da Infância e da Juventude





