Crianças que andam de sete a oito quilômetros por dia para ir à escola, adolescentes que não resistem às dificuldades e abandonam os estudos, mães constantemente preocupadas com o perigoso trajeto percorrido pelos filhos de casa até a sala de aula. A realidade é vivida por moradores de bairros da Zona Oeste de Londrina, que sem escolas locais que ofereçam ensino a partir da 5 série, caminham na contramão de iniciativas que procuram manter crianças e adolescentes o máximo de tempo nas escolas inclusive nos finais de semana como forma de tirá-los das ruas e diminuir os índices de criminalidade.
Só no Parque Universidade, onde moram aproximadamente 700 famílias, estima-se que em torno de 70 meninos e meninas estejam longe dos bancos escolares. Três deles são filhos do empacotador José Fernando da Cruz. ''O caçula (de 13 anos) até tentou estudar ali no Panissa (denominação dada pelos moradores mais antigos ao Conjunto Avelino A. Vieira), mas um dia ele foi perseguido no meio do mato e não quis mais voltar para a escola'', conta o pai, resignado. Além da longa distância, as crianças que se matriculam nas escolas mais próximas têm que passar por trechos não habitados, atravessar uma plantação de trigo e caminhar à beira da rodovia PR-445, que liga Londrina à vizinha Cambé.
Para Cruz, os filhos fora da escola são uma preocupação constante. ''Eles ficam por aí, na casa de colegas e na rua. É duro porque hoje em dia a gente é nada sem estudo.'' O empacotador lamenta não ter dinheiro para pagar passagens de ônibus para os filhos.
O carpinteiro Ivandir Barbosa vive situação semelhante. Uma das filhas, de 15 anos, abandonou o estudo este ano. ''A mais nova ainda está frequentando a escola porque vai com as filhas de uma vizinha. Mesmo assim, de vez em quando a gente tem que pagar ônibus, quando chove por exemplo, e o dinheiro não dá'', queixa-se o carpinteiro. A filha, Francislaine Barbosa, diz que sente falta de aprender, mas confessa que o cansaço, por ter que caminhar uma hora para chegar à escola era muito grande. ''Não aguentei'', revela.
Para evitar que as filhas desanimem e que nada de ruim lhes aconteça, a dona-de-casa Margarida Nascimento Ferreira percorre diariamente 12 quilômetros para levá-las e buscá-las na escola. Matriculadas na Escola Estadual Dr. Olavo Garcia da Silva, no Conjunto Avelino Vieira, única da região a oferecer ensino de 5 a 8 série, as garotas de 10 e 12 anos andam pelo meio da roça e atravessam os jardins Maracanã e Olímpico antes de chegar ao seu destino diário. ''A gente não quer pensar o pior, mas nunca sabemos o que pode acontecer no trajeto'', diz Margarida.
Segundo o presidente da Associação de Moradores do Parque Universidade, Donizete Pereira dos Santos, também os moradores dos jardins Maracanã (I e II), Campos Verdes, João Turquino, Olímpico, Sabará (I e II) e Colúmbia (A, B e C) sofrem com a falta de escola. ''Só no Turquino moram 870 famílias; no Maracanã são outras 800 e aqui mais 700. A Escola Olavo Garcia suporta no máximo 930 alunos, mas a demanda aqui na região é de mais de duas mil vagas'', afirma Santos.
Ele lembra que no início deste ano a população fez um protesto pedindo a construção de escola na região. ''Esperamos todo este tempo e até agora nada. Já estamos pensando em novo protesto, mas desta vez não vai ser aqui no bairro. Nossa intenção é ir lá no Núcleo de Educação. Não é possível que o Estado não tome alguma proviência.''
Segundo o chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE), Rony dos Santos Alves, atualmente não há perspectiva de quando será iniciada a construção. ''Já nos reunimos com os moradores e discutimos a proposta de construir uma escola dentro do campus da Universidade Estadual de Londrina, através de uma parceria entre Secretaria Estadual de Educação e a universidade. A princípio os moradores aceitaram, mas depois voltaram atrás, argumentando que continuaria longe para eles.''
Alves explica que o modelo proposto era de 18 salas de aula, mais laboratórios de informática, química e biologia e salas de recursos multimeios, além de utilização de toda a infra-estrutura disponível na universidade. A parceria entre UEL e Secretaria, segundo ele, facilitaria a construção. ''O projeto agora é de uma escola menor, com 10 salas, no Parque Universidade. A prefeitura já se dispôs a doar um terreno, agora estamos aguardando a liberação de recursos por parte do Fundepar (Instituto de Desenvolvimento Educacional do Paraná.''

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