Mudanças na legislação e a elaboração de políticas públicas sinalizam que o Brasil tem avançado nos últimos anos no combate à homofobia, mas demonstrações de intolerância e desrespeito à diversidade sexual ainda são comuns até mesmo entre a população mais jovem e acontecem frequentemente dentro do ambiente escolar. É o que revela uma pesquisa elaborada pela Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), divulgada em novembro. O estudo aponta que 73% dos estudantes LGBT de 13 a 21 anos de idade que frequentavam a escola em 2015 foram alvo de agressões verbais e 36% sofreram agressões físicas. Além dos prejuízos ao rendimento escolar, os alunos vítimas de agressões cometidas em razão da sua orientação sexual ou identidade de gênero revelam uma chance 1,5 vez maior de desenvolver depressão aguda, além de baixa autoestima e maior desejo de cometer suicídio.

A Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016 – As experiências de adolescentes e jovens LGBT em nossos ambientes educacionais ouviu 1.016 estudantes LGBT de 13 a 21 anos matriculados em escolas públicas e privadas em 2015. Os dados foram coletados entre dezembro de 2015 e março de 2016 pelas mídias sociais e por e-mail e a maior parte dos entrevistados (73,1%) era estudante da rede pública de ensino.

Segundo o levantamento, os estudantes que sofrem preconceito com menor frequência afirmam ter notas melhores do que aqueles constantemente discriminados. Entre os que relataram agressões pela orientação sexual ou pela identidade ou expressão de gênero "nunca, raramente ou às vezes", cerca de 80% afirmaram ter alcançado notas boas ou excelentes, entre sete e dez pontos. Mas os índices caem entre aqueles que sofrem agressões "constantes" ou "quase sempre" por orientação sexual (73,5%) e expressão de gênero (72,4%). O estudo aponta ainda que 60% dos alunos relataram que sentem-se inseguros na escola por serem LGBT.

FORMAÇÃO INTEGRAL
Psicóloga, doutora em Educação e professora sênior da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mary Neide Damico Figueiró não retira dos pais a responsabilidade de trabalhar dentro de casa a questão do respeito, da diversidade e das diferentes opiniões, inclusive com a adoção de atitudes que combatam o preconceito. Porém, lembra que a diversidade faz parte do humano e precisa ser trabalhada com naturalidade na escola desde que as crianças são pequenas. A sala de aula, defende ela, é o espaço ideal para se trabalhar a educação sexual. "Primeiro porque a escola é responsável pela formação integral do educando e a sexualidade faz parte. Quando um aluno vai para a escola, ele não deixa a sexualidade em casa. Num segundo ponto, porque a escola é o espaço onde, diferente de casa, o tema pode ser trabalhado no debate, na discussão com os iguais", afirmou. "Está na hora de os adultos colocarem o pé no chão e abrirem a mente e o coração para um novo entendimento do ser humano. Não adianta as pessoas serem contra uma coisa que está aí, que é para ser enxergada e compreendida."

As dificuldades de se avançar na educação sexual dentro das escolas, acredita Mary Neide, começam na formação dos professores e chegam no discurso conservador que tem ganhado força nos últimos anos e que trouxe à tona a questão da ideologia de gênero, o que teria causado retrocesso nas discussões acerca da sexualidade dentro das escolas. "Esse pessoal que traz esse discurso de ideologia de gênero traz junto a ideia de que a escola não é responsável por tratar isso (educação sexual). A gente vinha percebendo que os profissionais de escolas, em um número significativo, vinham tomando ciência e buscando recursos que pudessem ajudá-los a trabalhar essa temática. Aí vem todo esse discurso conservador e enviesado da ideologia de gênero virar de pernas para o ar todo o serviço de educação escolar. E o que é triste é que a gente vê que há educadores e psicólogos que estão abraçando também esse discurso", critica Mary Neide. "O que é preciso entender é que se uma pessoa tiver que vir a ser homossexual, não há nada que se faça no período do desenvolvimento infantil para mudar isso. É parte da integralidade do ser a sua orientação sexual."

MAIS CRÍTICAS E ABERTAS
A educação sexual nas escolas, afirma a psicóloga, deve ir além da questão de gênero e da diversidade sexual, abordando temas como autoerotismo, gravidez na adolescência, aborto. "Eu quero formar crianças mais críticas, abertas, que superem preconceitos e tabus, que saibam enxergar onde tem discriminação e ajudem a mudar essas normas e preconceitos. O trabalho específico com gênero e diversidade é como se fizesse um recorte. Não trabalha a educação sexual como um todo", analisa.

Limitar o ensino de educação sexual à biologia e fisiologia da sexualidade e aos métodos contraceptivos também é deixar de explorar outros temas que seriam fundamentais para o aprendizado emancipatório do aluno, avalia Mary Neide. Para a psicóloga, a redução dos índices apontados pela pesquisa feita pela ABGLT só será possível a partir do momento em que houver um bom programa de educação sexual nas escolas. "Amanhã, essas crianças e adolescentes que hoje estão na escola participando dessas situações de discriminação com homossexuais ou transgêneros serão pais e mães de família e estarão de mente e coração fechados para acolher seus filhos que não venham a ser heterossexuais. Não há temor nenhum (em educar sexualmente as crianças e os adolescentes). Nós só teremos adolescentes e crianças mais humanizados se tiverem esse conhecimento e a gente poderá ter um mundo mais tranquilo, de paz, sem violência, sem esse índice de discriminação com relação a essas pessoas homossexuais", defende.(Com Agência Brasil)

mockup