EDUCAÇÃO - Muito além das disciplinas regulares
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quinta-feira, 03 de agosto de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
A gerente executiva da Cáritas, Deusa Rodrigues Favero, acrescenta que muitos alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) deixaram de frequentar a escola porque "não é o ensino formal que estão procurando. Muitos já são alfabetizados e tiveram aulas de matemática no Haiti. Eles só querem aprender o português."
Mas o currículo da EJA aborda temas além das disciplinas de português e matemática. Na terça-feira (2), quando a reportagem acompanhou a aula, os estudantes recebiam noções da Lei Maria da Penha. A professora Sandra Padovani Siena explica que na disciplina "Estudo da natureza e sociedade", ela aborda questões de cidadania no Brasil.
A coordenadora da EJA Fase 1 da Secretaria de Educação, Déborah Flora dos Santos, reforça que a Educação de Jovens e Adultos visa não apenas ensinar o letramento ou as disciplinas escolares. "As aulas também abordam a questão da cidadania, o respeito à diversidade, noções de política, ética, tudo com o objetivo de ressignificar o cotidiano escolar na vida dos nossos alunos. A intenção da EJA é garantir o direito à educação de qualidade aos nossos educandos, para que eles sejam protagonistas da própria história, assumindo seus papéis e sua importância na sociedade", afirma.
A coordenadora explica que o curso possui duração de dois anos, podendo variar conforme o desempenho do aluno. "São 500 horas de aula por ano, divididas para completar mil horas de curso. Mas os alunos com mais facilidade, e que se desenvolvem mais rápido, podem concluir a carga horária em menor tempo. Da mesma forma, o estudante que tiver mais dificuldade vai contar com um atendimento específico, e que pode demandar mais tempo", detalhou.
MATRÍCULAS
A Secretaria Municipal de Educação (SME) recebe inscrições de pessoas que queiram cursar as séries iniciais do Ensino Fundamental. Podem se matricular pessoas com idade igual ou superior a 15 anos, em qualquer uma das 34 escolas municipais que oferecem a EJA na área urbana e rural. As aulas ocorrem no período matutino, vespertino ou noturno.
Para se inscrever, basta comparecer na unidade escolar escolhida, com cópias de comprovante de residência (conta de luz), RG e CPF. A matrícula é feita na hora e o início das aulas é imediato. Na rede municipal de ensino, os alunos contam com a EJA Fase I, que corresponde do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. E na Escola Municipal Nara Manella, localizada no Conjunto Semíramis, é ofertada a EJA Fase 2, que equivale do 6º ao 9º ano, com professores municipais.
Atualmente, a SME possui 789 alunos matriculados na EJA. Os estudantes têm acesso ao conteúdo de Língua Portuguesa, Matemática e Estudos da Sociedade e da Natureza (Geografia, Ciências e História). As aulas são de segunda a sexta, com exceção de algumas escolas onde as aulas são realizadas três vezes por semana, como no Assentamento Eli Vive.

Aumenta número de atendimentos
A Cáritas é um órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que está instalado em Londrina desde 1996. No ano de 2012 a Cáritas atendeu 30 refugiados e em 2016 esse número atingiu 1,5 mil pessoas. A maioria deles é composta por haitianos e bengaleses. De acordo com a gerente executiva do órgão, Deusa Rodrigues Favero, esta é a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. "A tendência é piorar. Trata-se de um fenômeno de mobilidade em que as pessoas não conseguem criar raízes em busca de melhores condições de vida. Além disso, há também a influência da precarização do trabalho", aponta.
Segundo ela, a Cáritas atende 200 famílias de haitianos na região. Favero aponta que a tendência é de que haja mais haitianos por aqui, já que muitos deles dão entrada no Brasil por outras dioceses de outros estados e quando chegam a Londrina já possuem documentação. "Nós não temos esse controle, mas eles formam grupos que se concentram em alguns bairros. Aqui na cidade há um grupo grande no Conjunto Maria Lúcia e no Jardim Santo André (zona norte). Em Cambé, Rolândia e Jaguapitã também há uma grande concentração perto de indústrias e frigoríficos", afirma.
A gerente executiva explica que o órgão faz parte de um protocolo internacional para atender migrantes de qualquer País e também do próprio País. "Quando um migrante chega ao País já sabe que a Cáritas ajuda com a documentação, em parceria com a Polícia Federal."
Ela conta que existe um grupo de trabalho que se reúne uma vez por mês, composta por entidades da sociedade civil e órgãos públicos. "Além da Cáritas, participam a Defensoria Pública, comissões da Ordem dos Advogados do Brasil. O GT também possui um representante do Núcleo Regional de Educação. Esse GT nasceu da necessidade de criar estruturas junto à sociedade para que eles possam buscar direitos. Foi dessa discussão que nasceu a possibilidade de assumir de maneira sistemática a questão da formação dos refugiados, que resultou na criação da EJA voltada aos haitianos", aponta.
Jean Romane Délénois, por exemplo, saiu do Haiti sem profissão, porque não havia concluído o Ensino Médio, condição necessária para conseguir uma formação profissional naquele País. "Eu estudo na EJA para aprender alguma profissão. Quero aprender a ser encanador. Já trabalhei em Curitiba como ajudante de pedreiro. Sem formação é difícil arrumar serviço", destaca. Ele revela que está com dificuldades para comprovar sua escolaridade porque deixou todos os documentos no Haiti. "Só vim com o passaporte. Quero frequentar uma escola profissionalizante."
Délénois conta saiu de Porto Príncipe, sua terra natal, em 2009, antes do grande terremoto que atingiu o País. "Ainda tenho familiares lá. Minha esposa está lá. Decidi vir ao Brasil porque a vida lá é difícil, porque tem muito bandido que mata por qualquer coisa. O primeiro lugar que fui ao sair do Haiti foi o Equador, mas não consegui arrumar serviço lá. Fiquei um ano e sete meses sem serviço até vir ao Brasil. Passei por Tabatinga e Manaus (AM), depois fui a Caxias do Sul (RS) e Curitiba. Estou em Londrina há dois anos, mas aqui também é uma cidade difícil de achar emprego. Estou há dois anos sem trabalho", lamenta.
(V.O.)


