As regras do tempo de nossos avós ainda valem nos dias de hoje? Como saber se não estão ultrapassadas? Estes são questionamentos feitos por um número cada vez maior de escolas, que lidam diariamente com situações geradas pela falta de limites e pela incapacidade das crianças de lidar com a frustração do 'não'. Com medo de traumatizar os filhos ou no desejo de suprir a falta de atenção, pais pecam pela permissividade, e o reflexo é claro dentro da escola. Daí a necessidade de educadores centrarem boa parte de seus esforços na discussão de direitos e deveres.
No Instituto de Educação Infanto-Juvenil de Londrina, os alunos participam de projeto iniciado no mês passado e que deve ser concluído até o final de março com o objetivo de discutir para quê servem as regras de convivência e por que devem ser respeitadas. O assunto nunca fica esquecido dentro da escola, mas é retomado com mais intensidade a cada quatro anos, em uma espécie de auto-avaliação. ''A idéia é checar como está o amadurecimento moral das crianças'', explica a diretora Dulce Maria Lima Desan.
Segundo a diretora, voltar a discutir o assunto depois de um período é importante para saber se normas antigas continuam necessárias e estimular que crianças em diferentes níveis de desenvolvimento pensem sobre o assunto. ''Assim como existe um nível de desenvolvimento cognitivo, existe um nível de desenvolvimento moral, e nem sempre ambos se desenvolvem na mesma proporção, como era de se esperar'', analisa. Esta espécie de ''levantamento'' das regras feito de anos em anos serve, de acordo com Dulce, para checar como está o amadurecimento moral dos alunos. Com isso, pode acontecer de novas regras serem incorporadas ao cotidiano da escola e outras mostrarem-se desnecessárias em determinadas turmas.
Da mesma forma, algumas destas leis podem ser negociadas, outras não. Entre aquelas que são inegociáveis estão, por exemplo, as ligadas à segurança e ao respeito com o outro. ''É uma forma de discutir o assunto com os alunos e não apenas impor, sem explicar a sua importância. O fato dos alunos poderem negociar com o professor não diminui a autoridade dele, muito pelo contrário. Os alunos sabem respeitá-lo, mas sabem argumentar. Essa é a diferença entre autoridade e autoritarismo'', argumenta a diretora.
Como pano de fundo das discussões, está sempre a idéia de que a convivência gera um compromisso social. ''Procuramos mostrar que as regras devem ser cumpridas visando o bem-estar do outro, e não por medo da punição em não cumpri-las'', explica a professora Margareth Felippe Cuba.
No Colégio Marista, os limites sempre fizeram parte da rotina dos alunos. O que mudou, nos últimos anos, é que as leis não vêm mais de cima para baixo. ''As regras sempre existiram, mas antigamente não eram discutidas, não podiam ser contestadas'', lembra a assessora psicopedagógica da educação infantil à 4 série, Maria Regina Gasparini Barone. As regras negociáveis são chamadas na escola de 'combinados'. ''Achamos importante esta possibilidade da criança discutir com os professores. É uma forma de ela verbalizar o que sente e, assim, organizar melhor as formas de resolver os atritos.'' Esta possibilidade, de acordo com a educadora, também faz a criança se sentir mais respeitada.
''Quando a gente ajuda a fazer a regra, é mais fácil cumprir, porque todo mundo concorda'', explicam os amigos André Francovig Menegazzi, Breno Granja Sella e Carlos Frederico Bracarense, alunos da 7 série do Instituto. Na turma que estudam, a regra que os obriga a respeitarem a vez do outro de falar mereceu destaque especial. ''Assim fica mais fácil'', justificam.
Para o pequeno Pedro Henrique Prevital Leite, da 3 série do Marista, a regra mais importante é ajudar o próximo, ''porque é preciso ser solidário para viver bem com os outros e promover a paz.'' Já Bárbara Amadeo Santana está com as atenções voltadas para a ecologia. ''Não podemos jogar lixo no chão, assim a gente faz a nossa parte para não poluir o mundo.''

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