Edina, 13 anos, é uma vítima da 'misturança'
Edina, 13 anos, é uma
vítima da misturança
Edina Pereira, 13 anos, morou 10 anos no Paraguai, na localidade de San Martín, com seus pais, agricultores. Ela diz saber bem o que é a misturança de português, espanhol e guarani, porque a comunicação familiar era no primeiro idioma e, na escola, os outros dois. Agora frequenta a Escola Municipal José Henrique Teixeira, do bairro Morumbi, zona norte de Cascavel, onde há outros nove brasiguaítos matriculados. A menina se pronuncia oralmente com desenvoltura no espanhol. No português, demonstra ser pelo menos mais tímida.
Edina, que está matriculada na 4ª série, enfrenta dificuldade principalmente na escrita. Sua professora, Elizabet Felix de Souza, achava que ela escrevía errado. A garota diz que não é tão simples como parece esquecer o ñ do espanhol, que equivale à pronúncia nh no português (por exemplo, español). Ou o ll (ello, aquella), o y (e), entre outras diferenças. Ela chega a articular frases em guarani, mas não escreve.
Edina foi levada para o reforço escolar. Percebemos que no dia-a-dia é que ela resolveria o problema de adaptação, diz a professora. A coordenadora pedagógica da escola, Veronice Alves da Silva, acrescenta que, além da questão linguística, nota-se também que a educação infantil, no Paraguai, é mais enciclopédica, enquanto no Brasil, e em especial no Paraná, considera mais as questões da realidade do aluno. Além disso, observa que muitos brasiguaítos protagonizam rotatividade, entre escolas.
Isto ocorre porque os pais, ao retornarem, têm dificuldades para encontrar empregos nas cidades (ou adquirir terras) e também para fixar moradia. A diretora da escola, professora Iracema Favaro Lira, acrescenta que já houve casos em que não foi possível manter os alunos na mesma série que frequentavam em seus locais de origem, por causa do desnível no processo ensino-aprendizagem. Em paralelo, também causa prejuízos a muitos alunos a correção de fluxo, que é a adaptação da criança à série de acordo com sua idade.
A queima de etapa é feita para que um brasiguaíto, por exemplo, não chegue aos 13 anos na 4ª série, ao lado de crianças de idade bem inferior. É o caso de Edina Ferreira, que poderia estar na 7ª série, se no Paraguai tivesse ido à escola antes.
Outra criança da escola demonstra grande confusão ao escrever o nome do próprio estabelecimento, revelando a influência paraguaia, pois escreve Jusé en Rique, por incorporar a fonética própria do espanhol. (P.P.)





