Economia pesqueira em crise
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de abril de 1999
Dimitri do Valle 
A epidemia de cólera provocou um colapso na economia pesqueira de Paranaguá no feriado da Semana Santa. No Mercado Municipal, principal ponto de venda de peixes e frutos do mar na cidade, os comerciantes calculam que a queda no faturamento alcance cerca de 90%. Ontem pela manhã, o mercado era o retrato do abandono: vendedores de braços cruzados à espera de fregueses.
O vendedor Ney Santos Tavares, 55 anos, confessou que é a pior crise enfrentada por ele no Mercado Municipal. Os caras ficam com medo de comprar por causa da cólera. Como é que a gente vai trabalhar?, indaga. Ele acha que a água potável do município é que oferece muito mais risco de contaminação. O vendedor Darci Alves Nunes, 50 anos, também crê que a água pode servir de agente propagador da doença.
Na sua banca, Nunes estima que cerca de 100 quilos de camarão ficaram encalhados. As vendas na Quinta e Sexta-Feira Santas, quando o movimento era intenso no mercado, caíram 85% em seu estabalecimento, segundo o vendedor. Estamos quase a zero, praticamente parados, comentou Nunes ontem pela manhã. Apesar da queda brusca nas vendas, o vendedor disse que não se surpreendeu pois já esperava o baixo movimento devido a epidemia de cólera.
Pescadores como Getúlio Vargas Bonvaquiades, 43 anos, e Nevaelt Gonçalves, 59 anos, estão sem trabalhar há dez dias. Prevêm que só possam retornar para o mar em duas semanas. Getúlio estima que em função da cólera deixaram de ser consumidas no litoral cerca de 15 toneladas de peixe, cinco toneladas de marisco e 2,5 toneladas de camarão. Os pescadores calculam que tiveram um prejuízo de R$ 2 mil só na Semana Santa.
Para Getúlio, o problema da cólera abriu um novo debate no município: a grande quantidade de esgotos que são despejados diretamente no Rio Emboguaçu. As autoridades tinham que ver a água e não o peixe, afirma. Ele diz que empresas como Catallini, Fospar e Sadia poderiam tratar melhor os dejetos que despejam no rio. Quando atiram a rede no rio, Getúlio lembra que além de peixes, a malha não deixa de trazer fezes que ficam no Emboguaçu.


