Londrina recebe uma visita nobre nos meses quentes do ano. Um príncipe passa pela cidade em busca de alimento, trazendo consigo duas das características que mais fascinam o homem desde o início da humanidade: a velocidade e o poder de voar. Entre o começo da primavera e o final do verão, o céu do Norte do Estado se enriquece com a companhia do falcão peregrino (falcus peregrinus), o mais veloz animal entre os seres vivos, capaz de alçar vôos de até 400 km/h.
O falcão peregrino é uma ave de rapina, como os gaviões e as corujas. Caracterizados pela excepcional capacidade de caça, estes animais simbolizaram, por séculos, a nobreza e a riqueza das famílias reais européias, o que lhe valeu o apelido de ''príncipe das aves''. Na Idade Média, somente integrantes das mais altas classes podiam possui-los e utilizá-los em um esporte conhecido como falcoaria - que consiste no lançamento de uma presa ao ar e na soltura do falcão para apanhá-la antes da queda.
Pois a imponência da ave se mostra viva ainda hoje, e também para os londrinenses. Desde 2003, os irmãos e biólogos Leonardo e Eduardo Patrial acompanham as visitas do falcão à cidade que, segundo eles, oferece os pombos como farta comida.
Tidos como cosmopolitas pela biologia, os falcões habituam-se facilmente aos prédios dos ambientes urbanos, o que lhes lembra as altas colinas do habitat natural. A altura facilita o ataque às presas, praticamente indefesas diante da velocidade que o animal é capaz de alcançar. Em mergulho vertical, Leonardo conta que há registros de vôos de até 400 km/h.
O falcão, um animal ornitófago (que se alimenta exclusivamente de aves) não ataca as presas com o bico ou com as garras: simplesmente bate contra elas, num impacto que provoca fraturas e até decaptações. O corpo morto geralmente é agarrado para o banquete antes mesmo da queda.
Leonardo estima que Londrina receba anualmente a visita de cerca de cinco destes animais, geralmente vindos da América do Norte em busca de calor e alimento. Eles são encontrados em todo o mundo, mas o Brasil é um dos poucos países em que o falcão não está ameaçado de extinção. ''A população diminuiu muito nos Estados Unidos há cerca de 30 anos, principalmente por causa do uso do DDT em plantações'', explica o biólogo, em referência a um defensivo agrícola altamente tóxico e banido da agricultura, mas até hoje usado clandestinamente. ''Hoje, o número de animais voltou a aumentar'', completa.
Pesando até 1 kg, com 40 cm de altura e 1 metro de envergadura, o falcão peregrino pode ser observado principalmente nas ruas do Centro de Londrina, no alto dos prédios. ''Eles têm uma coloração acinzentada, com as asas marcadas por pontos pretos. Muitas vezes, de longe, são confundidos com pombos'', conta Leonardo. ''E apesar de não serem agressivos, são ariscos. Eles raramente permitem a aproximação humana'', avisa.
O nome já avisa: o falcão é peregrino. ''É uma ave tipicamente migratória'', diz Leonardo. Então, para quem quiser receber a bênção de um nobre, é bom correr. Logo o inverno chega, e o príncipe das aves volta para o Norte, em busca de calor, de alimento e de quem o comtemple riscando o céu.

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