A protagonista dessa história já viveu o pior até conseguir encarar seus problemas com serenidade. Desde a confirmação de que era portadora do vírus da Aids, em 1989, essa mulher de 36 anos, que preserva a própria identidade para proteger o filho pequeno do preconceito, já perdeu marido e um bebê para a doença engravidou outra vez mas, novamente, a criança foi contaminada, e tentou o suicídio quatro vezes. Mesmo assim, aprendeu com seus erros a transformar as adversidades em ensinamento para voltar a gostar de viver.
Legítima representante da força feminina, ela recebeu a Folha para falar como é conviver com a Aids em família, na tentativa de que o seu depoimento ajude outras pessoas que, assim como aconteceu ela, perderam a esperança.
Com a franqueza daqueles que já provaram do lado mais amargo da vida, ela revela que descobriu-se soropositiva em 1989. O vírus foi contraído do marido. Dessa fase, restou-lhe apenas a saudade, já que passados cerca de três anos desde a descoberta, a Aids levou-lhe o marido e o filho num espaço de apenas pouco mais de um mês. ''Nunca aceitei a doença mas a partir daí não queria mais viver porque não tinha mais nenhuma razão para isso'', explica. Sua agonia era tamanha que tentou se matar por duas vezes nesse período.
Recuperada da fase mais aguda da depressão, em 1994 decidiu começar a tratar-se com medicamentos. Mudou-se para Curitiba e lá tentou refazer sua vida com um segundo companheiro até ter confirmada, em 1998, sua segunda gravidez: ''Tentei me matar outras duas vezes porque não queria perder mais um filho. Eu não queria mais sentir amor por aquela criança'', confessa. No entanto, graças ao apoio recebido em uma igreja evangélica, conseguiu levar sua segunda gestação até o final. ''O médico em Curitiba foi negligente. Ele nunca conversou sobre Aids comigo e não pediu que eu fizesse o teste. Como também não queria, não falei que era portadora do vírus''. Quatro meses depois do nascimento, o bebê também passou a se tratar com medicamentos. O filho de 6 anos leva uma infância normal, frequenta a escola, mas ainda não sabe que é portador de uma doença marcada pelo preconceito.
No início do ano passado, ela decidiu parar o tratamento por se ver bem de saúde e acreditar que não estaria mais doente. De novo, a Aids mostrou sua face mais devastadora: em dois meses perdeu mais de 20 quilos e também a guarda do filho. De volta aos remédios, ela recuperou a criança, a saúde e também a auto-estima. Lembra, também, que o respeito que conseguiu como missionária da igreja a ajudou a retomar sua caminhada. ''Percebi que estava errada e que meu filho veio para me fortalecer. Hoje me sinto mais segura, mesmo sabendo que tenho o vírus. Viver é muito bom'', aponta. E com a voz da experiência, orienta as gestantes soropositivas a procurarem apoio. ''Eu não fiz isso e paguei um preço. Hoje não aceito as pessoas que se entregam à morte. Temos é que querer viver; lutar para viver''. (L.A.)

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