É preciso ensinar a amamentar
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de agosto de 1998
Célia Baroni 
Dorico da SilvaGuerra: há muita falta de informaçãoSe o leite materno é o melhor para a criança, é acessível, prático e econômico por que a maioria das mulheres brasileiras não amamenta seus filhos nem durante os seis primeiros meses de vida? A questão foi abordada sábado pelo coordenador do Banco de Leite Fernando Filgueiras, da Fundação Osvaldo Cruz (RJ), João Aprígio Guerra. Considerado um das maiores autoridades no assunto, o pesquisador afirma que a explicação é simples: As mulheres brasileiras não sabem como amamentar porque não foram ensinadas e desconhecem a importância do leite materno para o desenvolvimento biológico e emocional da criança, resumiu.
Aprigio esteve sábado em Londrina abrindo a programação da Semana Mundial da Amamentação com uma palestra no auditório do Hospital Evangélico (HE). Segundo o pesquisador, até 10 anos atrás a amamentação vinha sendo divulgada como se, algum dia, tivesse sido uma prática entre as mulheres brasileiras. Nunca foi, enfatiza. Ele conta que as mulheres européias já não tinham o hábito de amamentar na época da colonização do Brasil.
Na Europa, a alimentação do bebê era deixada a cargo das amas de leite e o costume foi trazido no Brasil, respaldado pela escravidão. Ganhou mais força no século 19 com a chegada dos profissionais de saúde ao país. Para atender à demanda das mulheres brancas, usuárias do serviço de saúde, os profissionais criaram a síndrome do leite fraco, do pouco leite e do leite seco, para justificar a necessidade da ama de leite.
Outro mito que segundo Aprígio, tem de ser redimensionado é que o trabalho é um dos principais obstáculos a amamentação. Ele informa que uma pesquisa realizada com mães em todo o país mostrou que 77% das mulheres justificam que deixaram de amamentar porque acreditavam que seu leite era fraco. Apenas 3% das mulheres ouvidas afirmaram que tiveram de parar de amamentar porque não conseguiram conciliar trabalho e amamentação.
No início do século 20, o crescimento da indústria da alimentação reforçou a cultura da não-amamentação. Ela não tem interesse que a amamentação se torne uma prática entre as mulheres que produzem ou têm renda, analisa. O pesquisador acrescenta que desde a criação do movimento em favor da amamentação no Brasil, em 92, têm sido escolhidos temas que evidenciam os reflexos da alimentação no bom desenvolvimento da criança.


