É preciso bom senso para educar
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quinta-feira, 01 de julho de 2004
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Desorganização da sociedade, mães que trabalham o dia inteiro fora de casa, mudança acelerada de costumes, falta de bom senso. Como educar um filho em uma época em que tudo parece conspirar contra a construção de seres humanos saudáveis? O complexo tema foi discutido na semana passada em Londrina, pelo professor doutor em psicologia educacional Paulo Afonso Ronca, em palestra promovida pelo Sindicato das Escolas Particulares do Norte do Paraná (Sinepe/NPR). Autor de vários livros entre eles ''Um Passarinho Chamado Pontinha'' e ''Quem Conta um Conto Aumenta um Ponto'' Ronca falou a pais e professores sobre ''Um desafio para os pais o relacionamento interpessoal na família''.
Para Ronca, que também é membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, o que diferencia a educação de uma criança de hoje e a de gerações passadas são duas características básicas da sociedade atual: a desorganização e a complexidade. Estas características, segundo ele, trazem problemas maiores para os relacionamentos, tanto nos campos político e econômico como no social. ''Daí a razão da família ter que estar mais fortalecida e preparada para poder educar.''
O problema é que, no geral, a família tem passado por dificuldades. Entre elas Ronca cita a inserção da mulher no mercado de trabalho, ''abandonando'', de certa maneira, seu papel na família; a crise financeira, que é maior e interfere na vida familiar; e a adaptação aos novos tipos de relacionamento, gerados pelas separações de casais.
''O que não se deve nunca esquecer é que a criança precisa ser educada. Não a eduque para ver o que acontece. Costumo dizer que o humano nasce animal mamífero, bípede, vertebrado, para depois tornar-se pessoa. E esse tornar-se pessoa só acontece depois da educação'', observa o psicólogo, lembrando até o último momento de sua vida o ser humano deve estar se educando para a sociedade e para a possibilidade da convivência.
A questão dos limites, de acordo com o psicólogo, tornou-se uma grande preocupação porque o próprio mundo os perdeu. ''O humano perdeu o script que tinha; perdeu receios, perdeu medos. Quando, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos invade o Iraque sem a permissão de um órgão representativo do qual ele faz parte, como a ONU (Organização das Nações Unidas), isto é ausência de limites. Ao mesmo tempo, quando os terroristas derrubam duas torres cheias de gente, como no 11 de setembro, isto é ausência de limites. Governos, mídia, multinacionais perderam os limites. E eu pergunto: as crianças também não perderiam?''
O remédio para esta situação, na opinião de Ronca, é bom senso. É ele, segundo o psicólogo, que indica que a criança deve ter horário para dormir, que não deve falar palavrão, que não pode bater nos outros. ''Acho que tudo hoje tem que ser guiado pelo bom senso, mas o perdemos, em certo sentido.'' O conferencista lembra que quando a televisão mostra, às 18 horas, os crimes do dia, é uma demonstração de perda de bom senso, pois se trata de um horário em que a criança está acordada assistindo TV.
''Está difícil educar e deverá ficar pior. Não sou pessimista, mas esta mudança vertiginosa de valores e ausência de bom senso estão criando um humano com menos sensibilidade e portanto mais violento dificultando a convivência humana pacífica.'' Para Ronca, a palavra-chave hoje da educação é atuação. ''O adulto precisa atuar como educador, não pode abandonar este papel. O amor, o respeito, a afetividade, serão consequência.''


