Criada em 1987, a Associação dos Imigrantes no Brasil (Asibras) já atuou no recadastramento de estrangeiros no Brasil e defendeu bandeiras como a do direito de defesa do brasileiro Terumi Maeda Junior, condenado no Japão como autor do assassinato de uma garçonete. Passados 11 anos desde a fundação, a entidade realiza a campanha para repatriar os brasileiros que estão desempregados e vivem em condições precárias no Japão. Em pouco mais de um mês, 12 brasileiros puderam voltar ao Brasil pela Operação Resgate, a maioria com sérios problemas de saúde. Em entrevista à Folha, o presidente da Asibras, Sérgio Morinaga, explica o objetivo da operação.
Folha - Como surgiu a idéia da Operação Resgate?
Sérgio Morinaga - Através dos meios de comunicação, em especial os jornais voltados aos brasileiros no Japão, ficamos sabendo dos brasileiros que estão passando por necessidades nas ruas. Nos mobilizamos e fizemos contato com as autoridades governamentais, companhias aéreas, empresários, contando da Operação Resgate que iríamos desenvolver. Oficializamos a campanha para não ter problemas de pessoas se aproveitar do nome da Asibras e conseguimos resgatar em pouco mais de um mês 12 pessoas. Comunicamos o governo federal sobre este trabalho e fizemos o pedido de que nos ajude a trazer mais brasileiros, mas não fomos atendidos até o momento.
Folha - Qual o critério de seleção que é feito para resgatar estas pessoas? Há um suporte técnico no Japão?
DivulgaçãoSem dignidadeEm Hamamatsu, brasileiros vivem em condições subumanas: muitos dormem nos carros por não ter onde morarMorinaga - A prioridade é para as pessoas que vivem em situação crítica de saúde. Os desempregados não possuem assistência médica e, sem dinheiro, não têm condições de pagar um hospital. O brasileiro que trabalha normalmente, que está numa empreiteira, tem seguro saúde. Quem está desempregado não tem o apoio nem das autoridades locais. Para se ter uma idéia, no Brasil o SUS (Sistema Único de Saúde) atende todo mundo, sem distinção, apesar das dificuldades. No Japão a coisa é diferente. Por isso estamos priorizando os doentes. Através da Nipomed do Japão fazemos uma triagem de todos os casos, para evitar que dekasseguis que não são vítimas do desemprego, mas que deram calote nas empresas, deixaram seus empregos ou se endividaram com jogos e vícios, não sejam beneficiados com este atendimento. Por isso temos a estrutura da Nipomed para cadastrá-los, selecioná-los e realizar os primeiros exames médicos.
Folha - Há informações de que o desemprego no Japão é setorizado, ou seja, atinge somente uma determinada região. No entanto, a Asibras afirma que o desemprego é geral e atinge todo o Japão. Qual é o quadro do desemprego hoje?
Morinaga - Hoje o desemprego é geral. O problema é que ele afeta mais uma região que outra, mas em todo o país há desempregados. Para se ter uma idéia, de 260 mil brasileiros que trabalham no Japão, cerca de 30 mil estão desempregados. A situação é mais crítica em Hamamatsu (província de Nagoya). Já na cidade de Yzumi, na província de Guma, vivem cerca de quatro mil brasileiros, ou seja, 40% da cidade. Eles têm uma participação ativa no governo municipal. A comunidade ali é forte e ameniza a crise e não deixa transparecer para outros centros. Mas o desemprego é forte e atinge inclusive os japoneses. Se você vai a Hamamatsu, a coisa é bem mais pesada. Ali os brasileiros vivem em condições subumanas, embaixo de pontes, dentro de carros, doentes, passando fome. A prefeitura local é hostil aos brasileiros. Há necessidade de se implantar o modelo de governo de Yzumi em outras regiões.
Folha - Qual é a participação do governo brasileiro para evitar que mais dekasseguis fiquem em condições de misérias no Japão?
Morinaga - O desemprego no Japão cria um problema diplomático, com brasileiros sendo presos por roubar comida para saciar a fome, miséria por todos os cantos. A Embaixada do Brasil em Tókio e o consulado em Tókio e Nagoya ajudaram a colocar a documentação dos brasileiros repatriados em ordem. Não tenho críticas ao trabalho deles. Mas acredito que falta um apoio mais explícito do Ministério das Relações Exteriores a este problema, uma política mais firme e uma maior mobilização.
Folha - Quem pode ajudar nesta Operação Resgate da Asibras?
Morinaga - A campanha não tem fins políticos ou lucrativos. Estamos querendo o apoio de toda a comunidade para ajudar no transporte destas pessoas. Estamos em busca de novos parceiros, em especial as empresas que tiveram algum proveito da aplicação financeira dos dekasseguis. Já estamos com o apoio jornalístico da Folha, da Vasp, da Nipomed e da Construtora Sena, de Londrina, que cedeu uma passagem aérea para a campanha. A Rede Record também está anunciando que vai ajudar na campanha. A comunidade nipo-brasileira, que comemora este ano os 90 anos da imigração japonesa no Brasil, também pode mostrar sua solidariedade ajudando na campanha. Acredito que após esta divulgação, será a grande força para os brasileiros se mobilizarem e ajudar os nossos patrícios.

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