É nóis na fita, primo!
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sábado, 19 de abril de 2008
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Nas ''fitas'' do mundo do crime, até as palavras viram arma quando o que está em jogo é a sobrevivência em um ambiente hostil. Comum entre os adolescentes que gozam da liberdade, as gírias se inflam de valores tão subjetivos entre os encarcerados a ponto de fazer com que os mais ingênuos acabem pagando um preço caro pela ignorância. ''O piá que dá mi, cai de laranja e pode ver a coisa virar para o seu lado''. Para um bom entendedor: ''O garoto que dá uma mancada, mesmo que na inocência, sofre as consequências.''
Entre os adolescentes infratores abrigados nos educandários, conhecer e usar gírias é princípio básico para uma convivência mais pacífica. Dominá-las, no mínimo, é garantia para não ser pego de surpresa pelos colegas de abrigo. Em entrevista à FOLHA, um adolescente de 17 anos que está em sua segunda passagem pelo Centro de Socio-Educação I (Cense I) de Londrina deu a ''letra'' para trilhar o caminho das pedras: ''Quanto mais o cara sabe de gíria mais ele se levanta dentro da cadeia. Quanto mais coisa ele sabe mais é considerado. Cara que não sabe gíria passa mal (sofre).''
Quem mergulha neste universo sem conhecer a forma de comunicação está condenado a um martírio sem fim até aprender, na maioria das vezes à força, as leis do confinamento. Os códigos internos precisam ser seguidos inclusive para realizar tarefas simples como, por exemplo, usar o sanitário. ''Se ele vai no boi e fala banheiro, se fala pão em vez de marrocos, copinho em vez de caneco... Já leva logo uns marretão, quando um pega a mão e dá na pinha (cabeça) do cara.'' O adolescente do Cense I lembrou que ele próprio sofreu por desconhecer muitos termos, embora dominasse boa parte das regras. ''Já sabia um pouco da rua mas passei mal aqui na primeira internação. Eles falavam: ''Cê deu mi (mancada) piá... E é até perigoso virar a sua (complicar sua situação), pedir gesto para o pilantra (quando um outro adolescente exige que você agrida o colega). Aí o cara que está no X (alojamento) arrebenta você e tem que ir para o seguro (alojamento separado dos demais adolescentes). Se você não bater, o cara te pega no pátio e te arrebenta'', disse.
E de onde e como surgem as gírias ou novos usos para palavras conhecidas? ''(A gíria) surge das músicas, rap, hip hop, essas coisas''. Mas o interno apontou que existem também outras origens. ''Pode surgir também de mula, quando um menino começa a encarnar, zuar... Dessa zoação pode surgir a gíria, porque os caras não guenta a mula. Aqui no corró (alojamento ou cela) os cara zuam 24 por 48 (o tempo todo). Na cadeia, os caras já falam que se não tiver mula não passa o tempo. Que nem a gíria, se não tiver não passa o tempo. Tem altas gíria muito lôca.''
O adolescente reconheceu que fora do educandário, a vida toma outro rumo e não dá para usar as gírias a todo momento. ''Quando a gente vai procurar um serviço e fala 'tá ligado, tava afim de arrumar um serviço', a pessoa olha para tua cara como se cê fosse um vagabundo e vai te tisorar (excluir da vaga). Gíria tem que usar na hora certa senão você pula (se prejudica)''.
Entre os familiares também não é todo mundo que aceita esta forma de comunicação. ''Às vezes, sem querer, chamo até minha mãe de mano (amigo, colega) mas tento evitar. Uma vez chamei um tio meu de mano e quase me deu uns tapas. Ele falou: que mano o quê, moleque; aqui em casa é tio.''
Quem lida com adolescentes infratores também precisa dominar os códigos para, entre outras coisas, não correr riscos ou ser apanhado de surpresa. O educador Márcio Alencar está há quase dois anos no Cense I e confessou que no início foi bem difícil e logo percebeu que dominar os códigos seria fundamental para sua segurança. Mas, por outro lado, ele apontou que os internos quase nunca conseguem manter em segredo uma gíria nova. ''Eles não conseguem manter esses termos restritos porque alguém sempre acaba dizendo o que é'', completou. ''Se existe algum a gente ainda não descobriu'', brincou.


