‘É dífícil falar sobre o assunto’
Desde o golpe militar de 31 de março de 1964, a professora Estel de Mello Figueiredo manteve um silêncio sobre a ‘‘Escolinha do Povo’’. Ela só voltou a falar no assunto no dia 6 de julho deste ano, numa carta endereçada à irmã, Nelci Mello Tomadon, que estava iniciando o trabalho de resgate histórico do atual Colégio Osvaldo Cruz. Confira a seguir, alguns trechos da carta escrita 35 anos, 3 meses e 6 dias depois do golpe militar.
‘‘É difícil voltar a falar no assunto que fomos obrigados a calar e, de certa forma, apagar da memória para poder continuar a viver. Foi realmente o que aconteceu na época: ‘‘o silêncio total em troca da vida’’. Covardia? Coragem? Não sei, mas tudo isso é paradoxal (...).
‘‘Mais ou menos 37 anos se passaram, não sei precisar exatamente a época, é necessário pesquisa, quando emergia no país um forte movimento, onde a revolução se daria através da Cultura e da Educação, onde a pessoa de Paulo Freire desempenhou papel fundamental com o seu Processo Revolucionário de Educação/Alfabetização de Adultos (...).
‘‘Como o movimento vinha crescendo com bastante vigor no país, fomos pelo menos ‘‘ideal de luta’’. Luta não através de arma em punho, onde a camisa que vestíamos era o Brasil. A Bandeira que erguemos foi a do Brasil. O povo que queríamos ver livres através do conhecimento era o Povo Brasileiro’’.
‘‘Trabalhamos por este povo, analfabeto e sofrido. Por mais nada. (...) Se havia intenções segundas dos nossos coordenadores, não ficamos sabendo. Não houve tempo, foi tudo muito rápido. O golpe militar de 64 estabeleceu um corte vertical no movimento que foi decepado. O horror foi estabelecido. Dizer o que passamos, o que nossos familiares viveram conosco é quase impossível’’. (S.S.)

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