É difícil eu me sentir à vontade com meus filhos
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sábado, 29 de março de 1997
Da Redação 
Josoé de CarvalhoAsilo, exílioA irmã Seleide: Os idosos são marginalizadosA experiência do Asilo São Vicente de Paulo, na avenida Madre Leônia Milito (zona sul) reforça a afirmação do gerontólogo Flávio da Silva Fernandes. Responsável pelo asilo, a irmã Seleide Santos diz que, independente da camada social a que pertencem, a realidade vivida pelos idosos é complexa e triste. Eles são, quase sempre, marginalizados e desprezados, começando em sua própria casa. Muitas famílias não são capazes de ter pena ou sentimentos humanitários.
No asilo estão internados hoje 125 idosos com mais de 60 anos - 55 mulheres e 70 homens - e, segundo a irmã, pelo menos metade deles teria condições de estar em casa, sozinhos ou com os familiares. Ela conta que apesar de os idosos não admitirem a dificuldade de relacionamento com os parentes e filhos, muitos chegam a fugir de casa, e sequer aceitam visitar os parentes em épocas festivas. Justificam a atitude dizendo que preferem ficar sozinhos.
Há um ano a instituição iniciou trabalho, apoiada pela Universidade da 3ª Idade da Universidade Estadual de Londrina (Unati/UEL), para tentar resgatar o vínculo familiar dos idosos atendidos pelo asilo. Mas os resultados têm sido poucos e lentos. Quase todos têm famílias, mas se a gente entra em contato com 100, pedindo para que venham até o asilo participar de palestras ou atividades de confraternização, se aparecerem dez é muito.
Irmã Seleide acrescenta que, apesar do retorno lento, o instituto vai continuar insistindo no trabalho para melhorar o relacionamento entre família e idoso. As famílias precisam entender que o asilo não é um local onde podem simplesmente abandonar o idoso. Mais que estrutura física, eles precisam ser valorizados por suas capacidades e respeitados em suas limitações.
Mas, pelo menos aparentemente, alguns casos de ruptura já estão perdidos. O lavrador Orlando Pedrin Neves, de 79 anos, está na instituição há 11 anos e não quer nem ouvir falar de visitar os filhos ou ir morar com os familiares. Eles sempre me falam para ir visitá-los. Mas do que adianta eu aceitar o convite se quando vou sempre acaba em discussão? Já resolvi os meus problemas com eles. Quando eles querem me ver, vêm até aqui.
Ele fala que o problema não são exatamente os filhos, mas a esposa de quem se separou há muito tempo. Quando eu vou na casa de um filho ela diz que não vai mais lá e aí começa a discussão. Orlando comenta ainda: É difícil me sentir à vontade na casa dos filhos, porque o ritmo deles é outro e tenho medo de atrapalhar. O asilo é o melhor lugar para quem está sozinho. O lavrador tem oito filhos.
(Célia Baroni)


