Música sertaneja no toca-fitas, mãos sujas de graxa, caixa de ferramentas e uma caçamba cheia de material para asfalto. Não fossem as marcas de beijos espalhados pela lataria do caminhão, as toalhas rosas, os bichos de pelúcia no banco do passageiro e o inseparável salto alto, Miriam Kunhavalick, 31 anos, poderia ser considerada uma motorista comum. ''Antes de ter o meu próprio caminhão, quando ia pedir emprego, os homens riam da minha cara. Não sei por quê'', conta, se divertindo.
Há um ano e meio nas estradas, a paixão por caminhões vem desde criança. ''Eu não sei de onde surgiu, mas ela sempre gostou. Até quando foi tirar carta de motorista, o rapaz do Detran não queria deixar. Só tinha ela no meio daquele monte de barbado'', revela a mãe, Maria Teresa Kunhavalick. Miriam carrega material para asfalto e areia em dois caminhões próprios. ''Tem dia que eu chego em casa toda suja, com as mãos em bolhas, que eu acho que não vou aguentar. Mas no dia seguinte levanto e pego estrada'', conta.
Não sem antes se preparar. ''Já tentei usar botina, mas não consigo ficar sem salto. Sem óculos escuros também. Ninguém me reconheceria'', enfatiza. Com dois celulares pendurados no cinto, unhas esmaltadas, brincos, pulseiras e vários anéis, a graxa que fica nas mãos chega a perder a importância. ''Nunca vou deixar de ser eu mesma. Tentei ser como os caminhoneiros, mas eu sou assim'', afirma.
Solteira, ela coleciona elogios e histórias engraçadas das rodovias. ''Uma vez, eu e meu cunhado paramos em uma borracharia. Quando saí para pegar um refrigerante, o borracheiro falou para ele: esse travesti é perfeito. Parece uma mulher'', ri. Miram reconhece que a profissão e a determinação com que trabalha são de impressionar - e por que não, assustar - os homens. ''Não tenho a força masculina, mas tenho jeito. Esse meu trabalho também precisa de gente comunicativa, de bom relacionamento'', acredita.
Da sua rotina, ela conta que acorda cedo quando precisa sair para entregar qualquer carga. ''Levanto às quatro horas e saio, porque toda noite eu volto para dormir em casa'', explica. A insegurança é o principal motivo que a faz encarar horas de estrada, mesmo cansada, para voltar a Londrina. ''Quando eu chego em um posto, em cinco minutos enche de homens em volta do caminhão. Para um deles ser um assaltante não precisa muito. Eu não tenho força física para me defender'', justifica.
Se não fosse caminhoneira, Miriam seria advogada. Mas nada de terninhos pretos e brincos discretos. ''Queria ser daquelas que chegam botando a banca'', brinca. Ela também tem planos para a filha de 12 anos, que sonha em ser médica: ''Quando ela fizer 15 anos eu a coloco dentro de um caminhão''. Um dos grandes motivos de orgulho da caminhoneira é ter condições financeiras de cuidar da mãe e dos irmãos, um vestibulando e outro que, por causa de um acidente, está inválido.
Otimista, Miriam tem uma lição para quem ousa reclamar da vida: ''Sempre falo para as pessoas: sonha, mas sonha alto, porque nas mãos de Deus o seu sonho fica pequeno. Antes dos meus caminhões, eu não tinha dinheiro para pegar ônibus. Hoje, tenho dois veículos de muitos que irão compor minha frota''.

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