''É bom quando a gente tem uma escolha''
Gestos simples como abrir o portão e sair de casa, de bicicleta, têm um significado diferente para Pedro (nome fictício). Ele saiu do Educandário há poucos dias, depois de quase um ano de internação. Nos últimos 12 meses, a vida desse rapaz de 19 anos sofreu uma imensa reviravolta. O temperamento explosivo e um grupo de amigos ''da pesada'' colocaram Pedro no lugar errado, na hora errada. Envolvido numa briga e de posse de uma arma, ele matou uma pessoa. O rapaz, que até então estudava e trabalhava, e não tinha antecedentes criminais, foi preso por homicídio.
O internamento, no início, foi como um mergulho no fundo do poço. Os educadores que trabalharam com ele lembram que Pedro resistia a qualquer tentativa de conversa. Foi preciso tempo e muita paciência. O rapaz testava continuamente a equipe, sempre esperando que eles finalmente desistissem dele. Quando finalmente viu que isso não ia acontecer, Pedro começou a mudar. ''No início, quando ele vinha até minha sala, ele se sentava quase de costas para mim, nunca me olhava e jamais me dirigia a palavra'', lembra Aline Fioravanti, psicóloga da instituição.
Um dia, Pedro deixou escapar um pequeno segredo: queria ter um cachorro. Coincidentemente, uma vira-latas tinha dado cria na rua do Educandário. Aline não teve dúvidas, trouxe um dos cachorrinhos para Pedro cuidar. O contato com o animal ajudou a ''derreter'' o gelo e Pedro começou a sonhar.
''O PPA foi a melhor coisa que aconteceu lá dentro comigo. Muita gente pensa que aquilo lá é só coisa ruim mas eu fiz muitas amizades lá dentro. Eles me mostraram que todo mundo tem jeito'', diz Pedro.
A força para mudar, segundo ele, veio através da família. ''Eu pensei muito na minha mãe, meu irmão. É muito difícil ficar longe deles'', confessa. A razão também pesou: ''Para mim não compensava continuar do jeito que eu estava. Aquilo ia acabar ou em morte ou em cadeia''.
As conversar com a equipe de educadores também ajudaram Pedro a refletir sobre a importância das companhias: ''Tem amizade boa e ruim. As boas levam a gente para coisas boas e as ruins...''. Pedro reconhece que os velhos amigos voltaram a procurá-lo assim que foi desinternado. ''Eu não desfaço de ninguém, procuro ajudar. Mas o que eu quero, agora, eu é que sei''.
A determinação que se vê nos olhos de Pedro também se percebe nas novas atitudes. O rapaz, que tinha cinco armas antes de ser detido, agora anda desarmado: ''A primeira coisa que meus amigos fizeram foi me oferecer uma arma, de graça. Eu não quis pegar. O que eu passei, não desejo para ninguém''.
A liberdade reconquistada Pedro usa para estudar, trabalhar e fazer planos. Está frequentando uma igreja, pensa em casar, ter filhos, arrumar um emprego melhor, numa grande empresa. ''Para mim, valeu. O trabalho do pessoal no Educandário é muito bom, mas isso só vale para quem quer mudar. Ninguém vive sozinho, a gente precisa de ajuda e de uma nova chance. Mas cada um faz a sua própria escolha'', conclui. ''É bom quando a gente tem uma escolha, né?''(P.F.)





