Números divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) alertam: as denúncias e os processos éticos contra médicos estão aumentando de forma contínua. Resultado, segundo a entidade, de falhas na formação acadêmica do profissional que ignora a relação com o paciente e as formas de se prevenir das reclamações , do maior esclarecimento dos pacientes e do sucateamento do sistema de saúde.
Até julho deste ano, o número de denúncias recebidas pelo CRM-PR chegou a 275, sendo que 90 passaram pelo rito burocrático e se transformaram em processos éticos profissionais. Um dado preocupante porque em todo o ano passado foram instaurados 92 processos de um total de 320 denúncias. Já em 2003, foram 432 denúncias contra médicos no CRM-PR, que geraram 53 processos.
Para a corregedoria do CRM-PR, Raquele Rotta Burkiewicz, o aumento considerável no número de denúncias e processos seria uma tendência nacional e estaria atrelado a alguns fatores, como: maior acesso das pessoas à informação sobre direitos do consumidor; sucateamento do sistema público de saúde; e falhas na formação profissional. ''As pessoas descobriram sua cidadania e o atendimento pelo Sistema Único de Saúde deixa o médico numa situação delicada porque precisa atender grande número de pacientes num curto espaço de tempo e isso prejudica a relação com o paciente'', avaliou a corregedora.
Raquele completou que as faculdades de medicina também pecam ao não incentivar as discussões sobre a relação médico-paciente. ''O estudante praticamente não tem contato com o paciente'', criticou. Ela disse que boa parte das denúncias está justamente ligada à deficiências na relação do médico com seus pacientes e na qualidade do atendimento.
Professor de Bioética do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), José Eduardo de Siqueira, concordou com a corregedora, e ressaltou que ''a situação precaríssima'' do Sistema Único de Saúde interfere negativamente na qualidade do atendimento. Ele também aceitou a parcela de culpa das faculdades. ''O curso todo ocupa entre oito e nove mil horas. Dessa enorme carga horária, o que é reservado para discussão ética é entre 40 e 50 horas, o que é desprezível. A maior parte das horas vai para o ensino da técnica e as informações humanísticas estão se perdendo'', lamentou Siqueira.
Mas ''como um otimista'', o professor disse que, ainda que lento, já há algum movimento de mudança nas instituições de ensino. Ele citou que a Bioética, por exemplo, recentemente deixou de ser um apêndice da disciplina Medicina Legal e Deontologia. Isso abriu espaço para discussões mais críticas sobre o assunto ainda nos bancos escolares. (Leia amanhã: o que pensam os pacientes)

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