E AGORA, DOUTOR? - Médicos e pacientes não falam mesma língua
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quinta-feira, 01 de setembro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Sala de consulta com aparelhos sofisticados, vários diplomas fixados na parede e mesmo assim o paciente não fica satisfeito com o tratamento. Porque? Segundo a Promotoria de Defesa da Saúde Pública de Londrina, muito dessa insatisfação atual de pacientes é culpa do atendimento frio feito pelo médico. Na maior cidade do interior paranaense, referência na área de saúde, boa parte das famílias que procuram o Ministério Público para reclamar de profissionais da saúde tomaram tal decisão por estarem descontentes com os esclarecimentos dados.
Dando continuidade à reportagem publicada ontem sobre o aumento dos processos de erros médicos no Paraná, a Folha foi ouvir o outro lado o do paciente e constatou que ainda há muito que se avançar rumo a um caminho simples: a boa conversa entre o médico e a pessoa que buscou ajuda ou seus familiares.
Acompanhando o filho de três anos que estava internado no início da semana no Hospital Universitário (HU) com suspeita de pneumonia, Valderez Campos, 27 anos, disse que nem sempre é simples entender tudo que os médicos dizem mas insiste até se sentir satisfeita. ''Eu sou curiosa e procuro saber de tudo, até sobre exames'', afirmou. Mas, por outro lado, ponderou que a atitude não deve partir somente dos profissionais de saúde. ''acho que isso é uma coisa que depende tanto do médico quanto do paciente'', observou.
A operadora de caixa, Camila Cristina Menegolo, 23 anos, acompanhava a filha de sete anos no mesmo hospital e também garantiu que é curiosa. ''Alguns médicos não conseguem explicar qual o problema, mas daí eu pergunto de novo'', afirmou. ''É difícil generalizar. Mas com crianças por exemplo, quando o médico é frio, acho que isso interfere porque ela rejeita quando alguém chega com uma cara fechada'', opinou a mãe.
Os apontamentos feitos pelos usuários dos serviços médicos e hospitalares se somam aos do promotor de Defesa de Saúde Pública de Londrina, Paulo Tavares, que recebe reclamações principalmente de pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). ''Na maioria das vezes não conseguimos demonstrar o erro médico porque trata-se apenas de falha na comunicação. O médico tem que conversar mais com seus pacientes, tem que valorizar mais do que nunca esse relacionamento'', cobrou o defensor dos interesses públicos.
Hoje, existem 15 procedimentos em andamento na Promotoria mas apenas uma minoria trata-se realmente de erro médico. A maioria das reclamações é resolvida convocando o profissional para uma conversa com promotor e o paciente ou seus familiares. Uma ação por crime culposo não intencional só é proposta contra algum profissional quando há comprovação que ele agiu com imperícia, imprudência ou negligência. Tal decisão só sai após conclusão da perícia médica feita pelo Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção à Saúde (Caop-Saúde), em Curitiba.
Tavares disse compreender as dificuldades vividas pelos médicos do SUS mas destacou que um pouco mais de sensibilidade por parte dos profissionais de saúde não faria mal nenhum. Ele citou que a deficiência no diálogo é tamanha que muitas pessoas chegam até ele querendo descobrir, por exemplo, do que um familiar morreu. Para o promotor, boa parte dos médicos peca porque não consegue traduzir suas considerações para uma linguagem inteligível às pessoas leigas. ''Tecnicamente os médicos melhoraram muito, mas está havendo um descuido na relação com os pacientes, que chegam aqui cheio de interrogações'', concluiu.


