Quando a filha da assistente social e estudante de enfermagem Adriana Cristina Nadal nasceu, já havia outro bebê em casa: sua irmã caçula Amanda, de dois anos. A família tornou-se então um exemplo de duas situações comuns hoje em dia: a de adolescentes que nem tiraram as bonecas do quarto e se vêem, de repente, trocando as fraldas do próprio filho, e a de mulheres que já poderiam ser avós mas enfrentam o desafio de mais uma vez - ou pela primeira vez - serem mães. Adriana tinha 19 anos quando foi surpreendida pela gravidez. Sua mãe, 40.
Com os avanços das pesquisas na área de reprodução humana, muitas mulheres têm retardado a chegada do filho. Esperam a situação financeira se estabilizar e a carreira profissional se solidificar. Do outro lado estão as jovens mães, que apesar dos recursos anticoncepcionais, ocupam cada vez mais leitos nas maternidades. Biologicamente, a melhor idade reprodutiva para a mulher está no período após a adolescência e antes dos 35 anos. Mas será que se pesarmos todos os fatores que podem influenciar na geração e criação de um filho chegamos ao que se pode chamar de melhor momento para ser mãe?
Para a psicóloga clínica Eliana Louvison, independente da idade, a época ideal é aquela em que o desejo de ter um filho já tenha sido construído pelos pais e eles tenham consciência do custo de criar um filho, tanto em termos financeiros como de dedicação. ''Hoje em dia poucas pessoas têm filho nestas condições. Muitas jovens, por exemplo, engravidam para se valorizar, para se sentir o centro das atenções. E ter um filho é muito mais do que isso. Significa renúncias e disponibilidade para educar.''
Eliana observa, porém, que muitas mulheres em idade madura também têm dificuldade de mudar seu ritmo de vida em nome de um filho. ''Às vezes, quanto mais avançada a idade, mais compromissos financeiros a pessoa tem e maiores são os obstáculos para que ela consiga mudar o seu ritmo de vida para acompanhar o crescimento de um filho.''
A secretária aposentada Laura (nome fictício), de 54 anos, teve sua primeira e única filha aos 43, e admite que teve certa dificuldade para adaptar-se à nova vida, até então muito voltada ao trabalho. Com um bebê em casa e com outras situações inesperadas na família, ela resolveu se aposentar aos 45 anos. ''Sempre trabalhei muito e tive pouco contato com crianças. Percebi que quando temos um filho, muitas vezes é preciso entrar no mundo da criança, e eu nem sempre conseguia.''
Laura revela ainda que conforme a filha foi crescendo - hoje ela está com 11 anos - passou a ser questionada pelas amigas da escola em relação à idade da mãe. ''As outras mães são bem mais novas, e como hoje há muita valorização do corpo, da estética, percebo que ela se angustia pelo fato de eu ser mais velha. Isto a torna diferente dentro do grupo'', conta a secretária, lembrando que quando sua filha nasceu, todos os seus amigos já estavam com os filhos crescidos. Na família, toda uma geração também já havia chegado à idade adulta. ''Entre ela e a prima de primeiro grau mais nova são 28 anos de diferença. Então ela brinca com as primas de segundo grau.''
A secretária confessa um certo temor em relação ao futuro, e que já pensou que talvez não tenha tempo de conhecer seus netos. ''Isso não chega a me angustiar, até porque tenho cinco sobrinhos e acho que já tive minha cota. Mas muito do que planejei para minha filha tem a ver com minha preocupação de que ela seja independente o mais cedo possível'', diz.
Ao contrário de Laura, o que mais pesou para a estudante Adriana Nadal, hoje com 30 anos, ao se descobrir grávida foi a falta de maturidade. ''Eu estava no segundo ano da faculdade, tinha vergonha da barriga. Acho que não estava preparada para ter filho, ser dona de casa, ter que se procupar com comida e roupa. Foi muito difícil'', resume Adriana, mãe de Camila, 11 anos. Por diversas vezes, a universitária pensou que não ia dar conta do recado. ''Me perguntava de onde ia brotar o sentimento de mãe.''
Tudo mudou com o nascimento da filha, que ''sempre foi uma criança muito tranquila'', mas para Adriana ter um filho muito cedo ''significa ter o final da adolescência roubado''. Só agora, noiva e prestes a se casar, ela começa a admitir a idéia de ter um novo filho. ''Hoje eu e a Camila somos muito unidas, por isso não me culpo pelos sentimentos que cheguei a ter. Acho que minha vida seria diferente sim se a Camila não existisse, mas não sei se seria melhor.''

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