O clima está tenso entre brancos e índios. A Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, é um ponto de conflito. Em Londrina, o feriado também foi de duelo. Só que a disputa foi dentro de um campo de futebol e o que prevaleceu no final foi a confraternização entre os povos.
Um ônibus lotado veio da Reserva Indígena Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), para as partidas comemorativas, organizadas pelo Movimento das Associações de Moradores de Londrina. Foram dois jogos - masculino e feminino.
Para os moradores da reserva, os amistosos representaram uma oportunidade de jogar num campo com uma estrutura melhor, como gramado e alambrado, no Jardim Sabará (Zona Oeste). Na Reserva Apucaraninha, as partidas são sobre a terra, o que não impede que as disputas ocorram todos os finais de semana.
Os times indígenas contavam com um diferencial. A comunicação com o técnico e entre os atletas era toda feita em kaigangue. Pior para os times locais, que nada entendiam. ''Elas não entendiam, mas não adiantou nada'', lamentou a zagueira da equipe das índias Jaciane Kuitá, 16 anos.
A derrota por 10 a 1, no entanto, não tirou o bom humor da atleta. Para ela, valeu pela diversão. E a opinião é compartilhada pela meia-atacante do time adversário. Josiane Porto, 22, marcou dois gols e elogiou as rivais. ''Elas também têm bastante noção. Mas valeu a pena mais pela festa'', comentou a atleta, que joga no time do Jardim Sabará, campeão do último Torneio do Trabalhador.
Para o juiz das partidas, a língua também não foi uma barreira. Sérgio Pedro, 43, o Beiçola, disse que apesar de não entender as conversas em campo, os índios são mais tranquilos e só queriam saber de jogar bola. Ele garantiu que é muito mais difícil apitar uma partida só entre os brancos.
Na disputa entre os homens, a equipe da aldeia enfrentou um selecionado da região. O lateral-direito do time da Zona Oeste comentou antes do jogo que o mais importante era a festa. ''É uma grande brincadeira. O que vale é a gente receber bem todos eles'', disse.
E o time da casa levou o conselho a sério. Tanto que os índios começaram na frente do placar. No restante da partida, uma disputa equilibrada entre as equipes da casa e a da aldeia. Mas os visitantes não tomaram conhecimento do adversário e venceram por 3 a 1.
Visitantes que, aliás, foram fundamentais para o bom andamento da partida. Principalmente quando a bola enroscou em cima de uma árvore. Sem uma reserva, só não houve mais atraso porque um dos atletas não teve dúvidas e subiu o mais rápido possível para que o jogo prosseguisse. E, claro, a iniciativa foi de um dos atacantes do time do Apucaraninha.

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