Com quantas quadras se faz um bairro? No jardim Gaion, região leste de Londrina, são necessárias apenas duas para reunir boas histórias e gente feliz. Gaion é uma comunidade no sul da França, tão pequena quanto o bairro londrinense, com quatro quilômetros quadrados e apenas 77 habitantes. Mas não é daí que vem o nome do jardim, que integra o conjunto de bairros formados pela Vila Siam a partir de sítios e chácaras que foram sendo loteados.
Uma destas chácaras era a da família Gaion, que chegou a Londrina no início da década de 40 vinda de Ibitinga, interior de São Paulo. O casal morava com 12 filhos, entre eles Marieta Gaion, que está até hoje na casa. O local ainda preserva ares de chácara, com flores difíceis de se ver na cidade, como mirra e lanterna japonesa.
Dona Marieta vai fazer 90 anos em setembro, e impressiona pela lucidez ao contar sobre o ínicio do bairro. ''Era bem tranquilo. A gente nem sabia o que era um ladrão, saía de casa e deixava tudo aberto. Levávamos uma vida muito sossegada, apesar de não ter luz, asfalto e água só no poço'', recorda.
A história do bairro se confunde com a vida de Marieta. Ela foi uma das fundadoras da paróquia Nossa Senhora de Lourdes, uma das primeiras de Londrina, em 1958. ''Antes, a missa era realizada no meio do cafezal''. Na época das quermesses, ela ficava até de madrugada preparando os quitutes que seriam servidos no dia seguinte. ''Fazia pastel, pizza e comandava toda a preparação dos almoços. Eu adoro cozinhar'', conta sorridente.
Quando o assunto passa a ser os dias atuais no Jardim Gaion, dona Marieta mostra preocupação. Ela reclama a falta de um posto de saúde. ''É muito longe para procurar atendimento em outros lugares'', reclama.
Dona Marieta considera o bairro tranquilo. ''A gente ouve falar de um roubo aqui, outro ali. Mas os vizinhos são muito unidos, e um acaba cuidando da casa do outro''.
Luzia Aparecida Gagioni, que mora há 57 anos no bairro, afirma que a violência mudou a rotina do jardim Gaion nos últimos tempos. ''A gente saía à noite até mesmo quando ainda nem tinha luz, e era mais tranquilo. Ficávamos entre amigos na rua, tocando sanfona e conversando até tarde. Hoje não dá mais para fazer isso''.
O engenheiro eletricista aposentado Avedis Balekian também reclama da falta de segurança no bairro e da passividade de quem é vítima do crime. ''A violência está demais, porque o bairro é caminho para uma região ainda mais violenta, que é o Santa Fé. Comércios e residências são alvos frequentes de assaltos, e sempre tem menor envolvido. O problema é que muitas dessas vítimas ficam receosas em chamar a polícia, com medo de sofrer represálias'', lamenta o aposentado. Bons tempos aqueles em que a dona Marieta saía de casa e largava tudo aberto. Do jeito que a violência caminha, essa época não volta nunca mais.

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