Duas fazendas foram invadidas no final de semana por membros do Movimento dos Trabalhadores em Sem Terra (MST) em Nova Cantu (120 km ao sul de Campo Mourão). A primeira invasão começou na sexta-feira, com a chegada de cerca de 60 famílias na Fazenda Santa Terezinha, a 10 quilômetros da cidade. A segunda invasão ocorreu domingo, na Fazenda Nova Jerusalém, a um quilômetro da cidade, e provocou troca de tiros entre funcionários da propriedade e as cerca de 30 famílias de sem-terra.
Segundo a Polícia Militar, os sem terra renderam os funcionários e chegaram a fazer parte deles de reféns. A situação só se tranquilizou com a chegada da PM, que intermediou um acordo com os invasores. Eles liberaram os funcionários e, em troca, a polícia apreendeu três espingardas que os empregados usaram na chegada dos invasores. Ontem o clima era calmo na propriedade. Os funcionários trabalharam normalmente enquanto os sem-terra montavam acampamento.
A Fazenda Nova Jerusalém tem 280 alqueires e pertence ao casal Dino e Ilena de Souza Bórgia. Segundo ela, a propriedade tem 1.200 cabeças de gado, mas também há área destinada à agricultura. Ela nega que a fazenda esteja em processo de desapropriação pelo Incra, como alegam os sem terra. ‘‘Não tem nada disso’’, diz. Ela mora na cidade e ontem de manhã esteve no local, onde chegou a dar pão para crianças filhos de sem-terra.
‘‘As crianças não têm nada a ver com isso’’, justificou. Ilena chorou ao falar sobre a invasão com a Folha, por telefone. ‘‘Para que fazerem isso com a gente?’, questionou. ‘‘Não é justo uma pessoa honesta perder o que ganhou trabalhando’’.
Ela disse que vai tentar a reintegração de posse. ‘‘Também não precisavam atirar’’. Segundo a proprietária, 14 famílias moram na fazenda, que está há 20 anos em poder dela e do marido. O advogado dos donos da fazenda, Nílson Saraiva dos Santos, disse ontem que tem desde sábado uma liminar de uma ação de interdito proibitório, que impedia que a área fosse invadida. Mesmo assim, a informação era que outras 100 famílias deveriam chegar ainda ontem à Fazenda Nova Jerusalém. Os invasores vêm das regiões de Laranjal e de Cascavel.
Revolta Segundo o comandante em exercício do 11º Batalhão da PM de Campo Mourão, Jorge Araújo, existe a preocupação de haver revolta entre as mais de 700 famílias que estão há quatro meses em acampamentos no Assentamento Santo Reis, às margens da rodovia que liga Nova Cantu a Roncador. ‘‘Eles podem não gostar de saber que um grupo vindo de outra região invadiu a fazenda’’, ressalta.
A invasão à Fazenda Santa Terezinha, na sexta-feira, foi mais pacífica. A propriedade tem cerca de 600 alqueires e pertence a Amélia Martos Fuentes. Foi o gerente da fazenda, Valdemar Araújo de Souza quem avisou a polícia. Os invasores são oriundos do acampamento montado no município há quatro meses e são da própria região.

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