Duas pessoas recebem as córneas de Vanessa
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segunda-feira, 18 de agosto de 1997
Lucília Okamura 
Londrina
Dorico da SilvaEmoçãoO pedreiro Aparecido Dias: Não tenho nem palavras para agradecer porque a minha alegria é muito grandePassam bem as duas pessoas que receberam as córneas da estudante Vanessa Maia, 18 anos. Ela foi morta ao ser atropelada, na madrugada de sexta-feira, na avenida Tiradentes (zona oeste), e a família autorizou a doação. Os pacientes foram operados na sexta-feira à noite e um deles já recebeu alta.
Uma das cirurgias foi realizada no Hospital Universitário (zona leste), pelo médico oftalmologista Osman Ferraz. O paciente, Aparecido Dias, 34 anos, de Ibiporã, recebeu uma córnea no olho esquerdo. Ele está recuperando a visão gradualmente, continua internado e deve receber alta ainda nesta semana.
Aparecido Dias estava cego dos dois olhos há dois anos. Ele conta que trabalhava como pedreiro e, no final de 1992, espirrou cal em seus olhos. Senti coceira e ardência, mas não achei que fosse grave, diz. O pedreiro diz que foi perdendo a visão gradativamente, até ficar totalmente cego em outubro de 1994. Só sabia diferenciar o dia da noite.
O paciente foi informado da cirurgia na sexta-feira à noite. Cheguei no hospital às 19 horas e às 22 horas estava na mesa de cirurgia, lembra. Aparecido Dias conta que ficou na maior expectativa até domingo de manhã, quando o médico retirou o tampão do olho. Enxerguei o vulto das pessoas e agora estou conseguindo diferenciar as cores. Ele planeja agora realizar uma cirurgia de catarata no olho esquerdo e também um transplante no olho direito.
Sem poder trabalhar, o pedreiro, que é separado e tem três filhos, diz que está sobrevivendo graças à ajuda dos amigos e familiares. Além disso, ele contava com o apoio de uma instituição para deficientes visuais, em Ibiporã. Aprendi a andar sozinho na rua e a fazer artesanato. Vendia algumas peças e, com isso, ganhava algum dinheiro para ajudar no sustento da família.
Aparecido Dias revela ter vontade de conhecer e conversar com a família de Vanessa Maia. Não tenho nem palavras para agradecer porque a minha alegria é muito grande.
A outra córnea foi transplantada em um estudante de 23 anos, de Londrina, durante operação realizada na Santa Casa. O médico oftalmologista Sérgio Arruda Pacheco, responsável pela cirurgia, conta que o paciente reagiu bem e recebeu alta no domingo. Ele explica que o estudante tinha problemas na córnea, o que acarretava em baixa visão.
Há seis anos, o paciente já havia sido submetido a uma cirurgia no olho direito. Devido à demora em realizar outro transplante, o oftalmologista revela que o paciente já estava em vias de perder o olho esquerdo. A cirurgia durou 45 minutos e, apesar de ter sido bem sucedida, existe o risco de rejeição, principalmente no terceiro mês. Mas um enxerto que começa bem geralmente termina bem, ressalta.
Sérgio Pacheco, que é chefe do setor de oftalmologia do HU, observa que mais famílias deveriam se conscientizar da importância de doar órgãos. No caso específico de córneas, ele explica que a demanda ainda é muito grande para o número de doações.
Na opinião do oftalmologista, o ideal seria o banco de olhos do HU receber um par de córneas diariamente, para poder atender a necessidade de Londrina e região. Mas temos recebido um par a cada 10 dias. Osman Ferraz, diretor do banco de olhos, explica que são realizadas de 30 a 40 transplantes de córneas por ano.


