Londrina – São oito da noite e os irmãos da família Nogueira e Correia já estão na cama. Foi um dia cansativo, com horário para estudar, tomar banho, fazer refeições, brincar, entre outras atividades da rotina desta turma. Não fosse o fato de darem boa noite para duas mães, seria difícil adivinhar que Gabriel, de 17 anos, Juan, de 12, Maísa, de 10, e Maria Vitória, de 13, todos de Londrina, fazem parte de um novo tipo de família, as formadas por pais homossexuais. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 60 mil pessoas vivem em união consensual homoafetiva no País, conforme declarações do último Censo.
Apesar deste tipo de informação só ter sido pesquisado pelo instituto em 2010, a mudança na configuração das famílias brasileiras tem recebido destaque da mídia a partir de novelas e filmes que trazem em seu enredo grupos sociais formados por pais ou mães do mesmo sexo. O assunto, entre adultos, nem sempre é consensual, despertando dúvidas ainda sobre como tratar a formação de famílias não convencionais junto às crianças. Nesta categoria, incluem-se, por exemplo, núcleos compostos por pai ou mãe sem cônjuge e com filho e casais sem filho e morando com parentes.
Para a psicóloga Séphora Cordeiro, do Instituto de Psicologia e Análise do Comportamento, de Londrina, a questão demanda naturalidade por parte dos adultos. "Os pais devem tratar o assunto assim que as crianças começarem a entender as coisas e começarem a perguntar sobre elas. A resposta deve vir de acordo com o que as crianças querem saber, dentro do que conseguem entender", orienta ela, ao assinalar que não é raro que os adultos alonguem explicações que os pequenos sequer solicitaram. "Às vezes, os pais fazem um discurso muito elaborado sobre as evoluções da sociedade e o que os filhos precisam é apenas de uma resposta simples", pontua Séphora.
A regra serve tanto para casais heterossexuais como para casais homossexuais que têm filhos. O importante, sustenta a psicóloga, é que as crianças percebam e aceitem a diversidade em suas relações sociais. "Vivemos em um meio cheio de diferenças", reforça.
O ideal é mostrar que cada pessoa tem o direito de escolher em que tipo de família quer viver quando adulto e que este tipo de relação também é baseado no amor, explica a psicóloga e sexóloga Eliane Maio, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). "Família não tem determinação: pai e mãe. Família é a que protege, cuida, é funcional, ou seja, funciona, não é estrutural", diz. Na visão dela, nenhuma criança nasce com intolerância a diferenças, como o fato de coleguinhas terem dois pais em vez de uma mãe e um pai. "Isso eles aprendem com os pais, com a família, a religião, a escola. O preconceito pode ser passado verbal ou não verbalmente, quando, por exemplo, os pais mudam de canal ao verem determinado assunto na TV e a criança percebe", acrescenta.
Já a defesa de quem está inserido em uma família considerada diferente deve ser baseada no amor, propõe Eliane. A criança deve se sentir acolhida pela família, ter a autoestima elevada, assim um possível bullying tende a perder efeito sobre ela. "É preciso mostrar que ela pode até ter tido pais biológicos, como quem é adotado, mas que tem duas mães ou dois pais que a amam muito. Tem que se mostrar que existe amor e isso não é só com dinheiro, mas com presença, estando perto, contando histórias", ensina a sexóloga.

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