Duas alfaiatarias enfrentam a produção em série há 70 anos
Duas alfaiatarias enfrentam a
produção em série há 70 anos
Marcelo Almeida
A Alfaiataria Jockey, criada em 1928, é um dos últimos sobreviventes do ramo. É mantida por clientes fiéis, alguns até de terceira geração de uma mesma família, como conta seu proprietário atual, Roberto BiesemeyerA Alfaiataria Jockey
lançou a moda
de virar o terno
do avesso
As prateleiras e vitrines de madeira construídas pelo avô alemão já estão carcomidas pelos cupins, mas os irmãos Osvaldo e Guilherme Matter, de 71 e 72 anos, ainda estão atrás do balcão, ao lado dos coturnos, fardas e bonés. A Alfaiataria Riachuelo, especializada em artigos militares, parece ter parado no tempo, mas conseguiu sobreviver em plena região central da cidade, ao lado de lojas de Tudo por R$ 1,99.
Embora não seja muito conhecida pelo nome, a alfaiataria chama a atenção de pedestres e motoristas pela atmosfera inusitada criada pelas vitrines pintadas de azul e manequins fora de moda. Desde que abriu as portas, em 1932, o estabelecimento mantém as mesmas características, do letreiro esculpido em cimento ao mobiliário interno. Uma vez pensamos em fazer uma reforma, mas um amigo nos deu um conselho sábio de manter tudo original, para preservar a tradição da empresa, diz Guilherme Matter.
Marcelo Almeida
Guilherme Matter herdou a Alfaiataria Riachuelo, especializada em artigos militares
Ele e o irmão Osvaldo estão na loja há 66 anos, já moraram no local e guardam boas lembranças dos tempos em que o movimento de clientes era intenso. Aos sete anos de idade, já ajudava meu pai, Wilhelm Matter, a comprar fios e botões e entregar roupas. Hoje, com a chegada das roupas prontas e a dificuldade de encontrar alfaiates profissionais, estamos sofrendo para manter a empresa, comenta Guilherme. Atualmente, a Riachuelo atua apenas com a venda de artigos militares. Além do mobiliário original, a alfaiataria mantém clientes cativos desde a sua abertura, como um subtenente cearense que é frequentador assíduo da loja.
Questionados sobre o futuro da empresa, os irmãos Matter ainda não têm uma resposta pronta. Minha filha estava interessada em assumir a loja, mas já desistiu. Agora estou tentando convencer meu neto, conta Osvaldo.
JockeyUm dos últimos sobreviventes no ramo da alfaiataria na cidade é a Jockey, que nasceu em 1928. Apesar da concorrência das grandes lojas, que oferecem facilidades de pagamento e roupas prontas, a empresa registra casos de clientes de terceira geração da mesma família. São pessoas de bom gosto que valorizam o trabalho do alfaiate e fazem questão de vestir roupas personalizadas, sob medida e de durabilidade muito superior, argumenta o atual proprietário, Roberto Biesemeyer.
Uma das modas lançadas pela empresa nos seus primeiros anos de atividade foi a de virar o terno do avesso. Os tecidos utilizados na época eram melhores e podiam ser aproveitados dos dois lados. Depois que o terno ficava velho de um lado, virávamos do avesso e o cliente ganhava praticamente um novo traje, explica o proprietário.
Para Biesemeyer, a alfaiataria sempre vai manter um espaço no mercado, apesar do caráter artesanal - o alfaiate demora entre 16 e 20 horas para fazer um terno. Sempre vai haver pessoas que não encontram roupas prontas do seu tamanho, comenta. Segundo o proprietário, a principal dificuldade do setor é a falta de formação profissional. Com o pequeno número de bons alfaiates, a mão-de-obra é valorizada e temos de repassar isso para o preço final das roupas, observa.(G.P.)





