Albari RosaCustos altosTadeu Bonassoli (à frente), empreiteiro de lenhadores há 20 anos: ‘‘Não assino a carteira deles porque os custos são altos e a madeireira paga pouco pelas toras’’, justifica. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) só aguarda a formalização de uma denúncia para fazer uma vistoria na área de reflorestamento de Guaratuba. Essa iniciativa deve partir do presidente da Federação dos Agricultores do Estado do Paraná (Fetaep), Antônio Varantonello, 51 anos. ‘‘Vamos checar a situação dos lenhadores e provavelmente denunciar às autoridades’’, promete.
‘‘O quadro de condições precárias parece semelhante ao de outros projetos de reflorestamento do interior’’, informa a chefe do serviço de fiscalização da DRT, Vera Jucá, 43 anos. Segundo ela, a confirmação das irregularidades apuradas pela Folha pode gerar multas pesadas aos empregadores. No caso das empreiteiras catarinenses, a notificação caberá aos fiscais do próprio Estado.
Vera Jucá informa que a multa, nesses casos, é aplicada conforme o número de empregados e violações à Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). ‘‘A acumulação de ítens irregulares cria uma verdadeira bola de neve’’, emenda a fiscal. Se houver vistoria, a medida inicial será a solicitação da carteira de trabalho dos lenhadores para que elas sejam assinadas imediatamente.
O presidente da Comfloresta, Antônio Fernandez, diz que nunca foi autuado pelo Ministério do Trabalho. Não é bem assim. A Subdelegacia do Trabalho de Joinville notificou a madeireira em abril do ano passado. Isso ocorreu após vistoria a outro projeto de reflorestamento, situado entre os municípios catarinenses de São Francisco do Sul e Araquari. Os trabalhadores daquela área teriam enfrentado os mesmos problemas trabalhistas e de infra-estrutura básica verificadas em Guaratuba.
O presidente da Fetaep avisa que já tinha informações sobre situação irregular de trabalhadores florestais, mas em Guaraqueçaba e na extração de palmito. ‘‘Não temos muito o que fazer, a não ser lamentar o fato de os lenhadores de Guaratuba enfrentarem esses problemas’’, acrescenta Varantonello, que já foi bóia-fria e diz conhecer bem a realidade do trabalhador rural.
‘‘Tenho acompanhado a precarização das condições do trabalho rural desde 1971, quando comecei minha vida no campo’’, relata Varantonello. Ele acredita que a insensibilidade persiste nessas relações entre patrões e empregados. ‘‘Os coronéis ainda existem’’, diz Varantonello, referindo-se aos latifundiários do Nordeste brasileiro que, no início deste século, mantinham relações quase escravagistas com os trabalhadores de suas propriedades.

mockup