Drogas
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 1997
Osmani Costa 
Dorico da SilvaO crescimento do consumo de drogas em Londrina não é fato isolado e nem surpreendente
José Roberto Morel, delegado-chefe da Polícia Federal em Londrina
A droga é o cordão umbilical que interliga toda a rede de violências cometidas atualmente; ela está presente em todas as classes sociais e em todos os lugares imagináveis. A afirmação é do chefe da Divisão da Polícia Federal (PF) em Londrina, José Roberto Morel. A PF é a responsável pela investigação e desbaratamento de quadrilhas ligadas ao tráfico interestadual e internacional - narcotráfico - de drogas. A Polícia Civil (PC) e a Polícia Militar (PM) ficam responsáveis pela investigação e repressão ao consumo e tráfico local, sempre em menores quantidades.
Segundo Morel, o crescimento do consumo de drogas em Londrina não é fato isolado e nem surpreendente. A proliferação das drogas é um fenômeno mundial, que já preocupa há anos todos os governos dos grandes países da Europa, além do Japão, Estados Unidos e Canadá, comenta. O vereador Salvador Francisco (PSDB) concorda com esta explicação, mas considera que as autoridades ligadas ao setor de segurança precisam encontrar soluções também a nível local.
Neste sentido, o vereador - que é presidente da Comissão de Segurança da Câmara - convocou os chefes da PF, PC, PM, membros do Conselho Comunitário de Segurança e outras autoridades para uma reunião, no final de fevereiro. Nela, foram discutidos assuntos ligados à produção, venda e consumo de drogas na Cidade; além de articuladas medidas conjuntas entre as polícias para a investigação e repressão aos traficantes.
Temos que adotar algumas medidas mais rigorosas com urgência. Todos os dias recebemos denúncias na Câmara - através de cartas, telefonemas ou pessoalmente - de que as drogas estão sendo vendidas e consumidas livremente em lanchonetes, bares, nas praças públicas e escolas de toda a Cidade, afirma Salvador Francisco. Há denúncias, inclusive, de que policiais estariam envolvidos no acobertamento dos traficantes. Muitas famílias estão desesperadas, porque as drogas estão sendo oferecidas a seus filhos, com 11, 12 anos, nas proximidades e até mesmo dentro das escolas. Isto tudo necessita ser investigado e resolvido; não podemos empurrar com a barriga um problema tão sério.
O problema é muito sério; temos que adotar algumas medidas mais rigorosas com urgência
Salvador Francisco, presidente da Comissão de Segurança da Câmara de Vereadores
A Comissão de Segurança da Câmara enviou requerimento ao governo do Estado, dia 26 de fevereiro, solicitando a imediata implantação em Londrina do Programa de Segurança nas Escolas, que já funciona com 25 viaturas e 60 soldados da PM em Curitiba. Segundo Salvador Francisco, o governo se comprometeu a implantá-lo nos próximos meses. Ele diz ainda que a lista com os nomes de lanchonetes e bares suspeitos de venda de drogas foi passada às polícias e que vários pontos já foram estourados nos últimos dias. Os nomes não podem ser divulgados para não atrapalhar o trabalho de investigação.
Não há números que comprovem este aumento no consumo de drogas, e nem que possibilitem calcular quantos seriam os usuários e qual quantia de dinheiro o tráfico movimenta diariamente em Londrina. Há no entanto, de acordo com as polícias, fortes indícios de que os números são grandes neste setor; e de que o problema se agravou muito nos últimos anos.
Um destes indícios é o número de presos por tráfico ou uso de drogas, que tem aumentado bastante de uns tempos para cá. Atualmente, 16,47% dos 184 presos nos três distritos da Polícia Civil são acusados de tráfico; esta é a terceira maior causa das prisões, perdendo apenas para furtos e assaltos. Entre as mulheres, este índice sobe de forma significativa e se torna a principal causa. Das 20 mulheres presas em Londrina - no 2º Distrito da PC -, 70% são acusadas de tráfico. Na Penitenciária Estadual de Londrina, 12,5% dos 359 presos foram condenados por tráfico ou consumo de drogas.
Realmente, o consumo e o tráfico de drogas têm aumentado muito, numa proporção que até assusta a gente. Infelizmente, ela está presente em todos os locais da Cidade e no País inteiro. Aliás, esta já é uma questão de segurança internacional. Em Londrina, prendemos pessoas ligadas a esta questão praticamente todos os dias, afirma o delegado-chefe da Polícia Civil, Leonyl Ribeiro. Ele explica que são usuários ou pequenos traficantes, que atuam no varejo, e não no atacado.
Na opinião dele, o desbaratamento e prisão de grandes traficantes foram dificultados pela atual Constituição, que prevê a necessidade de mandado judicial para os policiais entrarem e revistarem as casas dos suspeitos. As polícias têm mapeados cerca de 200 pontos de venda de drogas na Cidade. Nossos investigadores ficam de campana, às vezes descobrem os traficantes, mas têm dificuldade para colher provas concretas do crime. O mandado judicial demora dias, semanas para ser expedido. Até que isto ocorra, os traficantes já sumiram, reclama Ribeiro.
Ao contrário do ex-chefe da Polícia Federal em Londrina, Sérgio Fidélis, o atual, José Roberto Morel, não acredita que Londrina faça parte de uma rota internacional do tráfico de drogas, que tem como ponto de partida a Bolívia e a Colômbia, os dois principais produtores da matéria-prima para a fabricação da cocaína, que é a plantação de árvores de coca.
Esta concepção de rota das drogas está superada. Não existe mais aquele caminho preestabelecido, fixo, que sempre foi divulgado pela imprensa e está no imaginário popular: da Bolívia ou Colômbia, passa por Corumbá ou Paraguai e Foz do Iguaçu, e daí para São Paulo, Rio de Janeiro, e depois Europa e Estados Unidos. Londrina estaria assim, geograficamente, incluída no itinerário, explica Morel.
Segundo ele, houve uma globalização da produção, do comércio e uso das drogas que preocupa as autoridades de todos os países desenvolvidos, onde está o maior número de usuários e dependentes delas - principalmente as mais perigosas como a cocaína e o crack. Hoje, o fenômeno do tráfico internacional é chamado de balé das drogas. Elas seguem os mais diferentes caminhos que se possa imaginar, desde a matéria-prima, passando pela produção até o consumo. Ela pode ter qualquer origem e qualquer destino, e é transportada basicamente por via aérea. A droga pode ir e vir várias vezes, entre a América do Sul, a Europa, o Japão e Estados Unidos, como exemplos, até chegar ao consumidor final. O que, obviamente, dificulta o trabalho de investigação e combate ao narcotráfico. É por isto que os governos dos países ricos estão, cada vez mais, investindo muitos recursos neste setor.


