A superlotação do Pronto-Socorro (PS) do Hospital Universitário (HU) de Londrina, que atingiu o ápice ontem, provocou um caos generalizado na maior unidade de saúde da região. Pela manhã, o atendimento no PS teve de ser suspenso, limitado aos casos mais urgentes. Além de pacientes instalados em macas e cadeiras nos corredores, muitos outros completavam mais de 24 horas aguardando por uma vaga na sala de espera do hospital. Duas pessoas que já haviam recebido alta tiveram de permanecer na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por falta de leito para internação intermediária.
Por volta das 10 horas, o HU contabilizava 60 pacientes internados no Pronto-Socorro, mais que o dobro da capacidade de um setor que dispõe de apenas 26 leitos. O número, contudo, podia mudar a qualquer instante: as ambulâncias não paravam de chegar. Mesmo com as condições de atendimento já precárias, a postura do hospital era de não recusar nenhum caso de urgência e emergência. ''Os casos graves a gente atende, nem que for no chão'', sentenciou o médico-plantonista Tercílio Turini.
Doze boxes usados para consultas acabaram virando salas de internação improvisadas, já que não havia leitos para encaminhar os pacientes pré-atendidos. As salas de ortopedia e gesso também foram usadas para esse fim. Sete pessoas foram internadas no PS de espera e outras 10 foram instaladas em cadeiras e macas nos corredores.
As cenas de superlotação no HU podem parecer velhas e repetitivas para quem acompanha a situação por meio da imprensa. Mas para o paciente que está lá neste momento, sofrendo duas vezes o próprio problema de saúde e a internação inadequada o drama é muito atual e merece atenção como se fosse único. O aposentado Manoel Francisco de Souza, 72 anos, poderia falar sobre como está se sentindo deitado em uma maca no corredor do hospital desde a tarde do último domingo, mas está muito magro e muito fraco até para se comunicar.
Em seu nome, a neta Michele Aparecida, 21, declarou à Folha que ''embora a família já tenha visto essa situação várias vezes, é impossível encará-la com naturalidade porque ali estão tratando de seres humanos''. Souza tem úlcera e não vinha conseguindo comer ou beber nada.
E o que dizer de Idalva Teófilo de Lima, 64 anos, que com o peso de um pé engessado (dentro do gesso, um dedo recém-amputado) permanecia sentada no hospital desde às 15 horas de segunda-feira, primeiro na sala de espera e depois na cadeira-leito? ''Meu bumbum está doendo'', comentou a aposentada, que ainda conservava um pouco de bom humor. Diabética, Idalva foi trazida de ambulância de Jataizinho (21 km a leste de Londrina) com uma crise de pressão alta e aguardou 12 horas por uma vaga. ''Às três horas da madrugada me disseram que só me atenderiam 'amanhã. Eu falei, 'mas amanhã já é hoje, não aguento mais!' e então me liberaram uma vaga nessa cadeira'', contou.
Do lado de fora do PS, ainda sem saber da suspensão do atendimento, um casal de idosos se dizia resignado a não sair do hospital enquanto não aparecesse uma vaga. ''Me deu alguma coisa nas pernas e não consigo andar. Vim para o HU ontem (segunda) às 6 da manhã e fiquei até às 16 horas, sem comer nada. Voltei pra casa sem atendimento. Hoje (ontem) madruguei de novo e não tenho hora para sair'', asseverou Izolino Galdino, 73. Sua esposa, Celina, 72, mandou um recado para o governo do Estado: ''Eles acham que estão fazendo muito pela saúde, mas está faltando muita coisa''.

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